Violência e religião

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Cruzei-me com esta passagem de Saïd Esber, em “Adonis – Violência e Islão”:

A concepção que impera actualmente no islão continua a acreditar que o islão é o único lugar das verdades. O problema talvez não residisse nessas próprias verdades se elas fossem individuais e só implicassem o indivíduo. O problema é que estas verdades totalitárias e peremptórias são impostas culturalmente, social e humanamente. Representam os critérios absolutos para a construção de uma sociedade, mesmo que nessa sociedade existam outras componentes, outras religiões.
A verdade no islão é uma verdade-comunidade. Não vem da criatura, vem do Criador. Portanto, nunca muda. É transmitida de geração em geração, total e definitiva, como um legado espiritual. Se for abandonada, a própria existência acaba. Sem essas verdades, ela deixa de ter sentido. Compreende-se então que um conceito como a jihad ou o mártir: é uma ilustração no sentido que essas verdades representam. Defendê-las é defender Deus, e defender a existência, mesmo contra ela.Quando se considera a verdade enquanto questão individual, implicando apenas aquele que nela acredita, pode-se aceitá-la como expressão de liberdade. Quando ela é definitiva como social e total, e implicando toda a sociedade por inteiro, então ela é imposta pela Lei. Por isso ela se torna uma violência. Acreditar nela torna-se uma submissão. Nessa altura, a sociedade não possuí a verdade. A verdade possuí a sociedade. O Texto é mais forte do que a realidade. Torna-se senhor da realidade, que passa a ser sua escrava. A verdade torna-se uma guerra perpétua contra o pensamento e contra o homem – contra as verdades dos outros.

Procurei então um “Um Outro Olhar”, de José Manuel Anes, quando remete para Pessoa:

A lucidez de Pessoa atinge, enfim, cumes de grande expressão em várias das suas obras. (…) É absolutamente notável toda aquela reflexão de que nós criamos os deuses. E, de facto, nós criamos os deuses, a quem, depois, prestamos culto e já não nos lembramos que fomos nós – Humanidade – quem os criou. Esta lucidez do Pessoa é notável. Também a auto-criação do Homem. O Homem é um projecto em diversos níveis mas, no domínio espiritual, é um projecto. Ele vai auto-criando-se. Daí continua a ser indispensável a lucidez. Direi mesmo que o seu exercício de dissociação de personalidades literárias é um exercício de lucidez.

Não sei se sou agnóstico ou crente. Mas conforta-me ter liberdade para pensar o que quiser e como quiser, sem que me cortem a cabeça. De ter liberdade para, na dúvida ou na falta de Deus, me sentir esperançado com o que escreveu Robert Wright:

Neste livro utilizei a palavra “deus” em dois sentidos. Primeiro existem os deuses que povoaram a história humana – deuses da chuva, deuses da guerra, deuses criadores, deuses para todo o serviço (tal como o deus abraâmico) e assim por diante. Esses deuses existem na cabeça das pessoas e, presumivelmente, em mais nenhum lado. Mas sugeri ocasionalmente um tipo de deus que é real. Esta possibilidade foi levantada pela existência manifesta de uma ordem moral – isto é, pela teimosa, mesmo que errática, expansão da imaginação moral da humanidade ao longo dos milénios, e o facto de que a manutenção contínua da ordem social depende de uma expansão ainda maior da imaginação moral, em direcção à verdade moral. A existência de uma ordem moral, disse eu, torna razoável suspeitar que a humanidade, em algum sentido, tem um “propósito mais elevado”. E talvez a fonte deste propósito mais elevado, a fonte da ordem moral, seja algo que se qualifique para a etiqueta de “deus” em pelo menos algum sentido da palavra. A frase anterior dificilmente é uma expressão ardente de fé religiosa; de facto, é essencialmente agnóstica. (in “A evolução de Deus”)

MC


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