Maram Susli: um enclave curdo na Síria é uma ideia muito má

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@ gianalytics.org

Por Maram Susli em Global Independent Analytics – 6 de Abril de 2016

PORQUE É QUE UM ENCLAVE CURDO NA SÍRIA É UMA IDEIA MUITO MÁ

Algumas razões simples que explicam porque é que a reivindicação da autonomia federal e a anexação de território sírio pelo PYD/YPG são ilegítimas, antidemocráticas e podem conduzir ao genocídio.

1. Os curdos não são a maioria nas áreas que PYD/YPG procuram anexar

A região de Al Hasakah, que o Partido Nacionalista Curdo (PYD) e sua ala militar YPG têm declarado ser um estado federal curdo, não tem uma maioria curda. A província de Al-Hasakah é um mosaico de cristãos assírios, arménios, turcomanos, curdos e beduínos árabes. Dos 1.5 milhões da população de Al Hasakah apenas 40% é etnicamente curda. Além disso, em partes da governadoria de Al Hasakah, tais como o distrito de Al Hasakah, os curdos são menos de 15% (!). Nos outros grandes grupos de minorias na área, árabes e cristãos assírios constituem a maioria. Declarar uma pequena área com uma grande variedade de grupos étnicos como pertencente a uma minoria étnica específica é receita para opressão.

A população curda de Al Hasakah também tem sido fortemente infiltrada pela imigração ilegal curda proveniente da Turquia. A imigração curda para a Síria iniciou-se na década de 1920 e ocorreu em várias vagas após múltiplos levantamentos falhados dos curdos contra a Turquia. Continuou ao longo do século. Em 2011, a população curda na Síria chegou aos 1.6-2.300.000, mas 420.000 deles foram da Síria para o Iraque e Turquia, por causa do presente conflito. Alguns curdos sírios vivem em Homs e Damasco desde há centenas de anos e foram absolutamente assimilados pela sociedade síria. No entanto, os imigrantes ilegais curdos que na sua maioria residem no norte da Síria, e que não conseguiram provar que já eram residentes na Síria antes de 1945, queixam-se de opressão por não lhes terem sido concedidos os direitos atribuídos aos cidadãos sírios. A lei síria determina que apenas têm direito à cidadania síria os nascidos na Síria filhos de pai sírio. Não foi atribuída a cidadania a nenhum refugiado, palestino, da Somália ou do Iraque, independentemente de qual tenha sido o tempo de estadia no país. Apesar disso, em 2011, o presidente sírio, concedeu a cidadania síria a 150.000 curdos. Isso não impediu o YPG de usar imigrantes curdos ilegais a quem não foi concedida a cidadania como justificação para a anexação de território sírio. Aqueles que promovem o federalismo estão a impor a vontade de uma pequena minoria – que não é de origem síria – à totalidade da população de Al Hasakah e de toda a Síria.

2. É antidemocrático impor o Federalismo à maioria dos sírios

O PYD não se preocupou em consultar outras facções da sociedade síria antes da sua declaração unilateral de federalismo. As outras étnias que residem na governadoria de Al Hasake, que o PYD afirma ser agora um estado curdo autónomo, têm claramente rejeitado o federalismo. Uma assembleia de clãs sírios e tribos árabes em Al Hasaka e a Organização Democrática Assíria (ADO) rejeitaram a declaração de federalismo do PYD. Em Genebra, tanto o governo sírio como oposição rejeitaram a declaração federalista do PYD. Além disso, o PYD não representa toda a população curda da Síria. A facção curda da coligação nacional síria condenou a declaração de federalismo do PYD. A maioria dos curdos da Síria não vive em Al Hasakah e muitos dos que lá vivem trabalham fora. Milhares de curdos juntaram-se ao ISIS e estão a lutar por um estado islâmico e não por um estado curdo.

A declaração unilateral de federalismo não tem qualquer legitimidade uma vez que a federação só pode existir através de uma mudança na ordem constitucional e de um referendo. É improvável que o federalismo angarie apoio substancial da maior parte da população da Síria, da qual 90-93% não é curda. Sabendo disso, o PYD proíbiu os moradores de Al Hasakah de votar nas próximas eleições parlamentares que decorrerão em todo o país. Isto demonstra que a vontade do povo de Al Hasakah já está a ser esmagada pelo PYD. Não é democrático continuar a discutir o federalismo como uma possibilidade futura quando tem sido rejeitado por muitos segmentos da sociedade síria. Irónicamente, é-nos dito que o propósito da aventura da mudança de regime preconizada pelos EUA para a Síria é trazer a democracia ao Médio Oriente.

3. O federalismo comporta um risco de limpeza étnica para os assírios cristãos e outras minorias

Uma vez que a população curda não é maioritária nas áreas que o PYD está a tentar anexar, os últimos anos têm revelado que PYD/YPG não excluem recorrer à limpeza étnica das minorias não-curdas para conseguirem uma alteração demográfica. A principal ameaça às reivindicações territoriais etnocêntricas curdas sobre a área provém das outras grandes minorias, os árabes e os cristãos assírios.

Salih Muslim, o líder do PYD, declarou abertamente a intenção de conduzir uma campanha de limpeza étnica contra os sírios árabes que vivem onde ele agora chama Rojava. “Os árabes que foram trazidos para as áreas curdas terão de ser um dia expulsos”, disse Muslim numa entrevista à Serek TV. Dois anos após esta entrevista cumpriu a sua palavra, pois o YPG começou a incendiar aldeias árabes em redor da província de Al Hasakah, esperando conseguir uma mudança demográfica. Estima-se que até agora tenham sido étnicamente removidos da província de Al Hasake dez mil moradores árabes. As aldeias ao redor de Tal Abayad foram as que mais sofreram, uma vez que os expansionistas curdos procuram ligar os centros populacionais não contíguos de Al Hasakah e Al Raqqa. “O YPG queimou a nossa aldeia e saqueou as nossas casas”, disse Mohammed Salih al-Katee, que em Dezembro deixou Tel Thiab Sharki, perto da cidade de Ras al-Ayn.

O YPG também iniciou uma campanha de intimidações, homicídios e expropriações contra a minoria cristã assíria. YPG e PYD fizeram disto uma política formal de saque e confisco dos bens dos que escaparam das suas aldeias depois de um ataque do ISIS, na expectativa de repovoamento das aldeias assírias com curdos. Os moradores assírios da área de Khabur na província de Al Hasaka formaram uma milícia chamada Guarda Khabour na esperança de defender as aldeias dos ataques do ISIS. Os líderes do conselho Guarda Khabur protestaram contra os saques dos milicianos curdos do YPG às aldeias assírias evacuadas após os ataques do ISIS. Posteriormente, o YPG assassinou o líder da Guarda Khabur, David Jindo, e tentou assassinar Elyas Nasser. O YPG procurou inicialmente atribuir a responsabilidade ao ISIS, mas Elyas Nasser, que sobreviveu e se encontrava hospitalizado, conseguiu expor o envolvimento do YPG. Desde o assassinato, o YPG tem forçado a Guarda Khabour a desarmar-se e a aceitar a sua “protecção”. Subsequentemente, a maioria dos residentes assírios do Khabour que tinham fugido para as áreas sírias da cidade de Qamishli controladas pelo Exército não puderam regressar às suas aldeias.

A comunidade cristã assíria em Qamishli também tem sido assediada pela milícia curda do YPG. O YPG atacou um posto de controle assírio matando um combatente da milícia assíria Sootoro e ferindo outros três. O posto foi criado depois de três restaurantes assírios terem sido bombardeados em 20 de Dezembro de 2015 num ataque que matou 14 civis assírios. Os assírios suspeitaram que o YPG estava por detrás desses atentados, numa tentativa de assassinar líderes assírios e prevenir quaisquer reivindicações de controle sobre Qamishli.

Seria tolice ignorar os sinais de que poderão ocorrer campanhas de limpeza étnica mais alargadas se os expansionistas curdos forem apoiados, especialmente desde que outros grupos étnicos discordaram dos seus planos de federalismo. Só ainda passaram 90 anos desde o genocídio assírio conduzido por turcos e curdos. Essa história não pode ser repetida. Desde então os assírios têm desfrutado de segurança e estabilidade no estado sírio. Forçar os assírios a aceitar o federalismo não lhes vai garantir a segurança. A criação de um estado curdo federal no Iraque também não tem protegido as aldeias assírias de ataques de grupos armados curdos. A campanha de limpeza étnica contra ambos, assírios e árabes, em Al Hasakah, já começou e agora só pode escalar.

4. Os recursos em Al Hasake são compartilhados entre todos os sírios

Enquanto os curdos constituem apenas 7-10% da população total da Síria, o PYD exige 20% do território da Síria. Além do mais, a região de Al Hasakah que o YPG quer anexar tem uma população de apenas 1,5 milhões. Grande parte da riqueza da Síria em agricultura e petróleo está localizada em Al Hasakah e é compartilhada por 23 milhões de pessoas. A província de Al Hasakah produz 34% do trigo da Síria e muito do petróleo do país. As estações de bombeamento de petróleo estão agora a ser utilizadas pelo ISIS e curdos do YPG para financiar os seus esforços de guerra, privando dele o povo sírio.

Enquanto as manchetes abundam sobre a população faminta da Síria, pouco se diz sobre como a federalização da Síria poderia legitimar a fome das próximas gerações. Em vez disso, os promotores do Federalismo discorrem sobre a forma como a entrega dos recursos compartilhados por 23 milhões a 1,5 milhões de pessoas conduzirá à paz.

5. A região curda na Síria será uma ameaça à segurança global

Uma vez que a maioria da população da Síria e o governo da Síria se opõem às reivindicações de anexação dos curdos, o PYD não será capaz de implementar o federalismo através de meios legais. A única forma de PYD e YPG poderem chegar ao federalismo é através da força bruta. Esta força bruta pode ser apoiada pela força aérea dos Estados Unidos e por uma invasão de forças especiais, o que contraria o direito internacional. O líder do PYD, Saleh Muslim, já ameaçou atacar as tropas sírias se tentarem retomar Raqqa ao ISIS. Um estado curdo na Síria à semelhança do Curdistão iraquiano garante a hegemonia dos EUA na região. Como o KRG [1], o YPG já está a tentar construir uma base dos EUA em solo sírio. A Rússia, que tem sido aliada da Síria desde há longo tempo, ficará consequentemente ainda mais isolada. Isto afectará mais uma vez o equilíbrio de poder no mundo.

Os países vizinhos da Síria também se opõem todos a um Estado curdo etnocêntrico na Síria. O YPG está ligado ao PKK, que está activo na Turquia e que as Nações Unidas designaram uma organização terrorista. A Turquia verá nas reivindicações de federalismo do YPG o reforço do PKK. Como consequência, a Turquia poderá invadir a Síria, gerando pelo menos uma guerra regional. Esta guerra regional poderia envolver o Irão, a Síria, o Hezbollah e Israel.

Israel quer criar um Curdistão, como rival sunita-iraniano para o Irão xiita. Esperam que um tal estado sunita vá bloquear o acesso do Irão à Síria e que impeça a resistência libanesa de se opor à invasão israelita. Tudo isto foi realçado no Plano Yinon de Israel publicado em 1982. Israel é uma extensão da acção e hegemonia dos Estados Unidos na região, o lobby israelita tem muita influência sobre a política dos Estados Unidos. Reforçar Israel na região irá reforçar a influência dos EUA sobre a região, mais uma vez, diminuindo a influência russa e encurralando uma potência nuclear. Os jornalistas que se mostram baralhados com a razão pela qual o Ocidente apoia o expansionismo curdo devem considerar este ponto.

Finalmente, a ideia da designada “área curda” na Síria está profundamente enraízada no chauvinismo etnocêntrico. Um estado norte-americano estritamente designado de etnicidade hispânica, branca ou negra seria uma sugestão escandalosa e seria considerado racista. Mas o recurso à etnicidade como meio para dividir e conquistar é a forma mais antiga e mais cínica do imperialismo. A Síria deve ficar para todos os sírios, e não apenas para uma minoria. As vozes que a tal se opõem devem ser desencorajadas. A Constituição síria deve continuar a resistir a todos os partidos de base religiosa e etnocêntrica. Se houver uma alteração à Constituição síria, deveria ser a remoção da palavra “Árabe” da designação República Árabe da Síria. Apesar do facto de a grande maioria sírios falar a língua árabe, a maioria dos sírios são históricamente não étnicamente árabes. Todos os sectores da sociedade síria devem ser tratados como iguais sob a bandeira síria.

[1] O governo regional curdo no Iraque

tradução de MC

 

 

 

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