Cegueira saudita

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O Ministro dos Negócios Estrangeiros Adel al-Jubeir na Liga Árabe, Cairo, 10 Março 2016. (AFP/Khaled Desouki)

Excerto de um artigo de Vijay Prashad.

A Rússia teve poucas “botas no terreno“. Fez a sua parte a partir do ar. As tropas sírias, iranianas, milícias libanesas e iraquianas constituíram a componente terrestre. De entre estas, as mais ferozes eram as milícias do Líbano —Hezbollah— e as forças especiais do Irão. Os sauditas quiseram puni-los pelo papel crucial que desempenharam na guerra, reforçando o exército de Bashar al-Assad. O elo mais fraco é o governo do Líbano, que tem uma base de apoio político-sectária tão frágil como as suas finanças. Os sauditas pensaram que se conseguissem colocar pressão sobre o Líbano acabariam enfraquecendo o Hezbollah.

Primeiro, o Reino da Arábia Saudita (RAS) cortou a ajuda de $ 4 biliões prometida às forças armadas libanesas. Esta verba era crucial para o Líbano, que tem um sério problema com a balança de pagamentos. Vivem neste país de 4 milhões de habitantes mais de 1 milhão de refugiados sírios e a ajuda financeira da comunidade internacional tem sido escassa. O Líbano não consegue suportar em simultâneo o fardo humanitário e manter guarnecidas as precárias fronteiras onde a afiliada da al-Qaeda (Jabhat al-Nusra) assentou arraiais e de onde lança ataques bombistas às áreas residenciais de Beirute. O corte dos sauditas é vingativo e perigoso. Deixa o Líbano à deriva.

Mas houve mais. O Bahrain e os Emirados Árabes Unidos começaram por deportar todo e qualquer libanês que mostrasse simpatia pelo Hezbollah. O receio instalou-se na diáspora libanesa do Golfo, cujas remessas são indispensáveis para as finanças de Beirute. Os estados do Golfo habituaram-se a expulsar periodicamente libaneses acusados de manter laços com o Hezbollah. Mas desta vez o contexto é significativamente diferente — segundo parece, os estados do Golfo decidiram reprimir directamente o Hezbollah a partir do RAS.

Os sauditas foram a uma reunião da Liga Árabe, no Cairo, exigir que esta considerasse o Hezbollah um movimento terrorista. Até 2011 a Liga Árabe fora uma organização largamente propensa a não adoptar posições contenciosas em relação aos seus membros. Em parte, significa que estava dividida entre estados árabes nacionalistas (Argélia, Egipto, Iraque, Síria, Líbia) e estados árabes do Golfo (Arábia Saudita, Qatar, EAU). No nevoeiro de 2011 o RAS e aliados colocaram Líbia e Síria à margem e após o golpe do General Sisi em 2013 subalternizaram o Egipto. Os lugares que estes estados ocupavam foram tomados por membros com menos autoridade e segurança, menos capazes de desafiar o RAS, que viu na Liga Árabe um instrumento manobrável.

Os sauditas ficaram desapontados quando insistiram em colocar o Hezbollah na lista terrorista. Eventualmente vão conseguir o seu propósito mas não sem que a Argélia, Iraque, Tunísia e Líbano manifestassem insatisfação quanto à manobra. O Hezbollah é um grande partido político do Líbano, essencial ao delicado balanço de poder. O governo do Iraque e o Hezbollah são parceiros na Síria. A Argélia e a Tunísia, descontentes com a progressão saudita no norte de África, não escondem o incómodo. A delegação do RAS chegou a abandonar a sessão mas regressou quando percebeu que levaria a sua avante.

Porque é que a Arábia Saudita anda agora em cima do Hezbollah? Sobretudo porque este tem estado envolvido na Síria nos últimos 5 anos. Incapaz de enfrentar os russos e confrontada com uma alteração das circunstâncias, elegeu o Hezbollah como alvo, na esperança de gerar o entusiasmo dos EUA (via Israel). Mas os EUA estão vinculados. Estão comprometidos com a resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU que disciplina a gestão da fonteira israelo-libanesa, patrulhada por uma força de manutenção de paz em coordenação com o Hezbollah, no terreno deste. A ONU não pode declarar o Hezbollah uma organização terrorista caso pretenda manter a operação da resolução 1701. O que confere aos norte-americanos — que já consideram o Hezbollah um grupo terrorista (sob pressão de Israel) — uma pausa na escalada da situação. A birra da Arábia Saudita não pode ser levada a sério por Washington. Nada de bom daí adviria.

MC
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