Magnier: perspectivas russa e iraniana sobre a Síria

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Mais um texto de Elijah Magnier.

A Rússia está a falar para os seus aliados no tom usado pelo presidente Obama quando se dirige àqueles que apoia no Médio Oriente dizendo-lhes “não vou ficar submerso no vosso pântano”, marcando contraste com o Irão em vários pontos. As principais disputas estão relacionadas com o timing do cessar-fogo, que Teerão considera ter sido acordado demasiado cedo, com o destino do presidente Assad e com o precoce anúncio da retirada da força aérea russa, enquanto muitas áreas estão ainda sob o controle do Estado Islâmico, Jabhat al-Nusra – al-Qaeda no Levante e aliados destes grupos.

De acordo com um oficial de elevada patente na Síria, a Rússia retirará o grosso da sua força aérea da base de Hmaymeem nos próximos dias e manterá helicópteros e jactos em número suficiente para proteger a base naval de Tartus e apoiar a guerra contra os jihadistas salafitas. Este movimento coincide com um acordo entre Washington e o Kremlin impondo a capitulação de todos os combatentes, excluindo os jihadistas. Nos termos deste, os EUA exigirão aos seus aliados na região o fim do envio de armamento aos rebeldes. Por Moscovo não partilhar a mesma visão mas ser a favor de eleições gerais sem pre-condições, Washington e Riade poderão ficar satisfeitas se o presidente Assad escolher um candidato a seu gosto, desde que desista de concorrer. Desta forma, nenhuma das partes envolvidas na guerra síria sairá a perder, todos sairão vitoriosos.

O que é aceite por Washington e pelo Kremlin não serve a Teerão. A pessoa de Assad representa o “eixo de resistência“. A sua queda fragiliza o eixo. Ninguém garante o futuro e Assad aceitou combater em defesa da doutrina e valia do eixo a que pertence. Por isso, a sua remoção não está na agenda iraniana. Como tal, o Irão e os que pertencem a este eixo não o abandonam. Caso contrário, a morte dos milhares que o apoiaram (Guardas da Revolução da República Islâmica do Irão, Hezbollah e milícias iraquianas) e das dezenas de milhar de sírios que combateram sob o seu estandarte teriam sido um desperdício.

O presidente Barak Obama distribui biscoitos a ambos os lados: Confirma que o interesse do Irão no Médio Oriente deve ser tido em conta, assina o acordo nuclear, apoia a campanha militar do Reino da Arábia Saudita contra o Iémen, rejeita a federação curda para agradar à Turquia e leva toda a gente à mesa de negociações, conjuntamente com a Rússia, com concessões ocultas em algum lado. Cada qual está satisfeito com a sua fatia do bolo e ninguém fica com o todo.

“O Irão não concorda com a Rússia quanto ao momento do cessar-fogo, porque as suas forças estavam a avançar em vários eixos. Ademais, a retirada da força aérea russa chegou em momento inapropriado, durante as conversações de Genebra, o que afectou as negociações e gerou especulações e interpretações várias. Quando o presidente Putin informou o Irão das suas intenções, enfatizou que esta manobra táctica não significava que a Rússia ia retirar da Síria; que o Kremlin pode trazer de volta, se necessário, em 24 horas, toda a frota para o campo de batalha; e que a decisão fora anunciada apenas para facilitar a obtenção de um acordo político com os Estados Unidos. Nós exprimimos a nossa preocupação com a inoportunidade desta manobra e confirmámos que estamos prontos a preencher a todo o custo alguma lacuna necessária à protecção do regime e do país e a injectar mais forças na Síria. Moscovo ficou agora ciente de que o Irão não vira as costas em nenhumas circunstâncias”, disse a fonte.

O Irão enviará mais tropas para a Síria para preencher o vazio russo porque considera que a remoção da al-Qaeda e do ISIS não é possível sem que forças terrestres combatam estes grupos. A batalha será retomada em breve porque nenhum deles está interessado no cessar-fogo ou em qualquer acordo político na Síria, e partilham uma ideologia forte destinada à prossecução dos seus objectivos, que são contrários aos do acordo Rússia-EUA. Ambos aspiram publicamente a um estado islâmico e não abrandarão enquanto não atingirem os seus propósitos. Por esta razão, o anúncio do fim da guerra na Síria é prematuro. O ISIS e a al-Qaeda não serão removidos nos corredores de Genebra ou num encontro secreto entre os EUA e a Rússia. E por fim, o Irão não concorda que a Rússia negoceie em nome da Síria e celebre acordos com os americanos. Por isso, há diferenças óbvias entre as posições de Teerão e Moscovo”.

A Rússia não é sensível relativamente às diferenças existentes entre o Irão e outros países do Médio Oriente (especialmente a Arábia Saudita). Além disso, a Turquia considera hoje que Assad pode evitar a divisão do país ou a criação de um estado curdo nas fronteiras turcas, de Hasakah a Afrin. Tal federação é perigosa para a Turquia e para a Síria mas pode também constituir um incentivo à sublevação dos curdos no Irão. Se o relacionamento turco-russo está num ponto mau, há aspectos políticos e económicos em que a Turquia e o Irão convergem.

Embora a Rússia não se importe com uma federação na Síria, o seu objectivo é evitar a divisão do país, independentemente de quem o venha a liderar. Por sua vez, o Irão não vê alternativa a Assad. E a Rússia mantém um bom relacionamento com Israel enquanto o Irão apoia o presidente sírio, que escolheu distanciar-se de Israel por uma questão doutrinal. Quem lhe venha a suceder tenderá para fazer as pazes com Tel Aviv.

O Irão não recuará no seu apoio a Assad, enquanto os EUA e Rússia acreditam numa solução em que todas as partes saiam vencedoras. Moscovo ainda apoia eleições sob os auspícios das Nações Unidas, que incluam qualquer candidato, inclusive Assad, mas sem preferência por quem quer que seja. É também claro que existem diferenças tácticas entre os aliados. Teerão e Damasco foram informadas sobre as últimas decisões dos russos mas não foram consultadas. Moscovo entrou no covil dos países mais influentes do Médio Oriente pela porta síria. Para onde irá se sair agora?

https://elijahjm.wordpress.com/2016/03/18/the-difference-between-russia-and-iran-over-syria/

MC

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