Ma’arouf: o Exército Livre da Síria está refém da Al-Nusra

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Jamal Ma’arouf, em 16 de Junho de 2013 na província de Idlib. Foto de Daniel Leal-Olivas/AFP

Numa entrevista ao Le Monde, Ma’arouf confirma o que já se sabia, que os rebeldes “moderados” da Síria tinham o apoio da Arábia Saudita, Turquia e EUA, através da CIA. Enquanto esta se empenhava na deposição de Assad, o Pentágono administrava um programa de apoio às Forças Democráticas Sírias, onde se incluem os curdos do YPG, no combate contra o califado.

“(…) Trabalho para o mesmo objectivo: libertar a Síria da ditadura Assad e da Al-Qaeda (…) o nosso problema não é com os alauítas, mas com a gente do regime e seus assassinos. Tenho muitos inimigos. Hoje na Síria, não sabemos quem é quem. A contra-revolução liderada pelo Estado Islâmico e Nusra baralhou as cartas. O Exército Livre da Síria (ELS) é muito fraco. Preciso de mais apoio, antes de voltar para o campo.(…)  É o governo turco que me abriga, me alimenta e me paga as despesas. (…)  O MOM [células de apoio para os rebeldes, localizadas na Turquia, sob a égide dos serviços secretos dos Estados Unidos] cessou todo o apoio no dia em que fugi para a Turquia. Desde então não tive contacto com os americanos e sauditas. Na verdade, descartaram-me completamente. Sabiam que estava cercado pela Nusra. Liguei para o MOM e pedi para atacarem as posições da Nusra, fornecendo as coordenadas de GPS. Mas não responderam. Apenas a Turquia tem facilitado a minha fuga, abrindo-me a fronteira. O ELS está subjugado pela Nusra. De Julho a Outubro de 2014 recebemos mensalmente a soma de US $ 250 000, a ser dividida entre 4.500 combatentes, ou cerca de US $ 50 por pessoa. O apoio militar foi menor. Forneceram principalmente munições, armas já tínhamos, que vieram principalmente de armazéns do regime, apreendidas. Recebemos uma única transferência de mísseis anti-tanque TOW [entregues pela Arábia Saudita, com o consentimento da CIA]. (…) Os actuais comandantes do ELS são forçados a lidar com a Nusra, que fica com parte da ajuda humanitária e militar enviada. Os líderes de Nusra deixam que o ELS fique com os mísseis TOW, porque não são estúpidos. Sabem que se forem eles a usa-los o fornecimento cessará imediatamente. E a Nusra precisa desses mísseis para destruir os tanques do regime. Basicamente a Nusra disse ao ELS como e onde os utilizar. (…)”

Os erros de avaliação dos Estados Unidos têm sido mais frequentes do que é desejável. Não conseguiram prever que o embargo imposto ao Japão em 1941 empurraria os nipónicos para uma guerra com a América. A administração Clinton avaliou mal a situação na Jugoslávia antes de decretar a anacrónica partição do território que hoje conhecemos, suscitando a ira da Rússia e da China, já para não falar no erro da independência do Kosovo, à revelia dos mais sãos princípios de direito internacional. George W. Bush decidiu derrubar Saddam Hussein e purgar o Iraque da influência do partido Baath, desvalorizando as indicações de que a guerra iria fragmentar o país segundo linhas étnicas e religiosas e que qualquer governo democraticamente eleito em Bagdade seria dominado por xiitas apoiados pelo Irão, com o correspondente aumento da influência deste na região. Quando os EUA conjuntamente com a França e o Reino Unido decidiram destruir Kadhafi, também desconsideraram os avisos, até os provenientes do mundo muçulmano, de que o vazio criado seria imediatamente preenchido pelos jihadistas sunitas, bem mais ameaçadores para a segurança dos estados vizinhos e para a própria América do que alguma vez fora a Líbia de Kadhafi.

Voltando à Síria. A verdade é como o azeite, vem sempre à tona. Os insurgentes são apoiados enquanto são úteis, mas descartados depois. Para além de fomentar uma guerra civil a administração Obama procurou derrubar o presidente Bashar al-Assad, apesar de este nunca ter representado uma ameaça directa para os Estados Unidos. Nem a administração nem o Congresso levaram a sério os relatórios das agências de informações que revelavam a elevada probabilidade de os extremistas islâmicos virem a condicionar a insurreição armada e a impor-se à oposição síria, em detrimento dos grupos mais moderados, nem acreditaram que Assad seria difícil de depor.

MC

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