Do svidaniya?

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crédito Reuters/Phil Noble

Dificilmente será adeus, do svidaniya.

Há quase um mês citei aqui Vitaly Churkin:

«A Reuters relata que Vitaly Churkin discordou de Bashar al-Assad por este ter afirmado que pretende combater até recuperar todo o território, o que parece ser uma primeira brecha na estratégia conjunta sírio-russa sobre o objectivo da guerra e sobre o timing e conteúdo das negociações com a oposição. Churkin: “A Rússia tem trabalhado para um acordo de paz na Síria e procurar recuperar o controle de todo o país seria um exercício fútil que permitiria que o conflito se arrastasse indefinidamente.” Churkin disse ainda mais, conforme se pode ler na notícia, mas para bom entendedor meia palavra basta. Moscovo dirá a Assad quando e em que termos deve negociar. Para já a palavra de ordem russa para Damasco é não perder de perspectiva o plano de cessar-fogo, apesar das recentes vitórias das forças armadas sírias e seus aliados.»

As declarações “surpreendentes” sobre a retirada (parcial) estão na ordem do dia. Para uns a Rússia intimidou-se com a perspectiva de escalada do conflito, para outros a Rússia percebeu que não tem condições financeiras para sustentar a campanha militar. A névoa  ainda é muita mas as bases russas ficarão a operar normalmente e a decisão foi acordada com o governo sírio. Terá havido também um acordo com os americanos, desconhecendo-se o que Putin obteve em troca. Nas operações no norte de Latakia havia artilharia russa e forças especiais mas o sector foi limpo de jihadistas e as bases já não estão directamente ameaçadas. Os S-400 do sistema de defesa aérea permanecerão na Síria.

No dia 14, durante um encontro com Shoigu e Lavrov, Putin afirmou: “Considero que os objectivos definidos ao Ministro da Defesa foram na generalidade atingidos. Eis porque ordenei o início da retirada da parte principal da nossa força militar do território da República Árabe da Síria, com início amanhã”.  Terá a Rússia atingido tais objectivos? No dia 11 de Outubro, numa entrevista a Vladimir Soloviev no canal de tv Russia 1, Putin afirmara que o objectivo da campanha militar era “estabilizar a autoridade legítima [do governo sírio] e criar condições para um compromisso político.” É portanto face a esta formulação que a avaliação política e militar deve ser feita. Putin não afirmou que a Rússia mudaria sozinha o curso da guerra, nem que a pretendia ganhar. Muito pensaram que o objectivo seria este, incluindo a derrota completa do Estado Islâmico no curto prazo, mas Putin não o disse. Aliás, antecipando conclusões, se o objectivo da Rússia fosse desta magnitude, a força expedicionária que colocou na Síria teria sido outra e não a que foi deslocada:  12 SU-24M, 12 SU-25SM, 6 SU-34 and 4 SU-30SM não são uma grande força, mesmo que apoiados por helicópteros e mísseis de cruzeiro (argumentação que li em The Saker, da qual me socorro). O primeiro objectivo foi atingido: a estabilização da autoridade legítima do governo de Damasco. O curso da guerra foi invertido e o balanço de poder na Síria foi alterado. O regime está fortalecido, na ofensiva e retoma a iniciativa. Já não existe o risco de Assad perder a guerra. Quanto ao compromisso político, os dados estão lançados e de Genebra se saberá que acordo vai ser gizado. Não depende apenas da Rússia.

Numa rápida entrevista à NPR, Joshua Landis, director do Centro de Estudos do Médio Oriente da Universidade de Oklahoma, referiu que Putin terá querido deixar três mensagens. Primeira – que é um estadista, buscando a paz e uma solução de compromisso com os EUA e dizendo internamente que a missão está cumprida, que foi decisivo, que é um líder, que chegou à Síria e fez, não tendo ficado atascado no “pântano” de que todos falavam. Segunda – dirigida a Assad – que pensava que Putin o carregaria às costas até ao fim, libertando todo o território; a Rússia não o abandona, atento o grande investimento político-militar feito, mas Assad não dita as regras. Terceira – dirigida à America, que não pretende trabalhar com a Rússia e com Assad – impondo-lhe uma certa forma de cooperação e responsabilizando-a pelo falhanço da guerra contra o terrorismo caso a cooperação não produza resultados.

Pode-se aprofundar isto um pouco mais, retrospectivamente, circunscrevendo-nos apenas à Síria e sem necessidade de mencionar por ora os outros actores com peso na região. Uma leitura atenta revelou que a estratégia principal da Rússia consistiu em forçar os EUA, os actores regionais e a população a escolher entre o regime no poder em Damasco e o extremismo violento do ISIS e afins. Nesta perspectiva, foi manifesto que parte dos ataques das força aeroespacial eslava foi orientada para o enfraquecimento da oposição “moderada”, transformando gradualmente uma guerra civil em triângulo – moderados, radicais e regime – numa guerra anti-terrorista entre duas partes – radicais e regime – porque os moderados só tinham praticamente duas opções: deixarem-se eliminar ou aliar-se aos radicais. É esta estratégia que está por detrás das resoluções 2254 e 2268 do Conselho de Segurança, preparatórias do acordo de cessação de hostilidades em curso, corporizada na obrigatoriedade de os rebeldes se demarcarem dos jihadistas caso pretendessem ser abrangidos pelo cessar-fogo e não ser destruídos. Como é sabido, o acordo não se aplica ao ISIS, Nusra e a grupos similares. Embora esta estratégia fosse útil a Damasco porque ampliava a sua margem de manobra, ela não coincidia com o objectivo último do governo: controlar todo o território da Síria. Em suma, Moscovo preferia uma solução negociada para a guerra em detrimento de uma vitória militar completa. Numa análise de custo-benefício a Rússia procurou “persuadir” a oposição a participar em conversações de paz cujos termos pudessem ser aceites pelo regime. Mas quanto maiores fossem os sucessos militares mais fraca ficaria a oposição e menor seria a vontade do governo em negociar. Churkin estaria portanto bem informado sobre este propósito quando comentou as declarações de Assad (querer combater até recuperar todo o território). Na sequência do falhanço das anteriores conversações de Genebra no passado Fevereiro, Mohammed Alloush, negociador chefe da oposição e membro do Jaish al-Islam, tinha antecipado este cenário quando afirmou que “o processo político não será iniciado enquanto a Rússia, o regime e o Irão quiserem ganhar militarmente a guerra“.

Como Putin não explicitou qual o calendário de retirada e quais as forças que permanecem, a margem de manobra é grande, com possibilidade de alavancar para um lado ou para o outro, em função das circunstâncias. Poderá acelerar ou retardar o processo conforme as conveniências. Duas conclusões parecem evidentes: ficarão na Síria as forças necessárias a assegurar o interesse da Rússia na região e as que considerar necessárias à prossecução dos seus objectivos políticos, diplomáticos e militares. É o que também se extraí da notícia do Hurriet, que cita Lavrov sobre a futura cooperação Rússia-EUA no leste do país: “Estamos prontos a coordenar com os americanos as nossas acções, porque Raqqa fica no leste da Síria e é principalmente aí que está activa a coligação que estes lideram; os americanos até nos sugeriram … dividamos o trabalho: vocês, força aérea russa, concentram-se na libertação de Palmyra, e nós, coligação americana concentramo-nos na libertação de Raqqa.

Entretanto, Pepe Escobar escreveu no Facebook sobre o que transpirou de Genebra. Que no pressuposto de o cessar-fogo se manter se tentará avançar para uma Síria federal, uma divisão light do território com três províncias principais: sunita em Deir Ezzor e Raqqa (assumindo que se faz a purga do ISIS/ISIL/Daesh); curda no norte, ao longo da fronteira turca (um pesadelo para Erdogan); alauíta, cristã, druza e sunita, cosmopolita e secular no remanescente do território, de Damasco até Latakia e Alepo.

MC

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