O regime turco é contra a liberdade de imprensa

Zaman_4.3.16

Último cabeçalho do Zaman antes do assalto da polícia

A Turquia e a Arábia Saudita, ostracizadas e desafiantes, têm procurado trilhar rumos diferentes daqueles que oficialmente lhes são indicados por Washington na questão síria, rumos esses que, no curto prazo, passam por um acordo de cessação de hostilidades entre o governo de Assad e a oposição, subscrito por russos e americanos, ao qual o Conselho de Segurança das Nações Unidas conferiu eficácia de direito internacional por via da incorporação do texto numa resolução do Conselho (resolução 2268, de 26 de Fevereiro).

A Turquia em particular, pressionada com refugiados dentro e fora das fronteiras, há muito que clama, até agora sem sucesso, por zonas de exclusão aérea e zonas de segurança, e que os norte-americanos se demarquem dos curdos do YPG que Ancara considera serem a principal ameaça à sua segurança nacional. Se somarmos o facto de Assad ainda estar no poder e lermos as últimas resoluções do Conselho de Segurança a pugnar pela independência, unidade e integridade territorial da República Árabe da Síria, entenderemos  melhor a frustração dos turcos e sauditas. Os rebeldes “moderados” que estes apoiam têm cada vez menos capacidade militar para influenciar politicamente os destinos da Síria e, a não ser que algum plano B venha inverter a situação, os ganhos a contabilizar pela Turquia e Casa de Saud serão praticamente nulos. Ademais, a influência do Irão e do Hezbollah na região mantém-se. Os turcos ameaçaram invadir a Síria, mas mais não fizeram do que sinalizar através de fogo de artilharia quais as áreas da Síria que gostariam de ver incluídas nas tão reclamadas zonas de exclusão aéreas e terrestres. Parece que ontem Erdogan terá novamente proposto a Obama a mega-construção de uma “nova cidade” com 4.500 quilómetros quadrados em território sírio para alojar milhões de refugiados de guerra. Território a administrar pela Turquia, naturalmente.

O ministro da defesa saudita, príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, apostou num esquema mais alargado e arriscado: atacar o Hezbollah pela rectaguarda, por via da destabilização do Líbano, numa mensagem clara aos dois poderes mundiais para que tratem Riade a sério, tendo em conta as posições sauditas na resolução do imbróglio sírio. Começaram por suspender uma contribuição de 4 biliões em ajuda militar ao governo libanês, denegando ao partido de Nasrallah que presentemente controla o país o acesso aos fundos, retirando também, desta forma, o tapete a Beirute, que contava com a verba para combater o ISIS e a Nusra na região do vale Beqaa. Ao enfraquecer a capacidade de resposta do governo e das forças armadas libanesas, Riade pretenderá criar condições para uma insurreição interna sunita, com repercussões inevitáveis no país. David Ignatus, considerado porta voz não oficial da CIA, escreveu recentemente no Washington Post sobre as intenções de bin Salman:

“The young Saudi has sometimes been more bold than wise, as in his war in Yemen, his decision to break diplomatic relations with Iran and his new effort to destabilize a Hezbollah-dominated Lebanon. (…) But his role as a change agent is unmistakable. He “wants to transition Saudi Arabia very quickly,” said Adel al-Toraifi, the Saudi information minister, who’s just 36 himself, in a visit to Washington last week.”

Tudo indica pois que a administração norte-americana estará informada do plano saudita, que poderá equacionar ou não incorporar num outro de âmbito mais alargado, caso o plano em curso de cessação de hostilidades não venha a resultar:

«US Secretary of State John Kerry provoked widespread speculation when he referred in testimony before the Senate foreign relations committee last week to “significant discussions” within US President Barack Obama’s administration about a “Plan B” in Syria. The speculation was further stoked by a “senior official” who told CBS News that options under consideration included “‘military-like’ measures that would make it harder for the regime and its allies to continue their assault on civilians and US-backed rebels.”
But “Plan B” is more complicated than that. A report by CNN’s Pentagon correspondent Barbara Starr on 26 February leaves little room for doubt that the administration’s cupboard of policy options is actually bare. An unnamed “senior US official” at the Pentagon admitted that “Plan B” is actually “more an idea than a specific course of action”. In other words, the administration’s national security policymakers believe something more should be done in Syria, but they are not at all clear what could be done now.»

Como o que veio a lume ainda é pouco mais vale aguardar..

Voltando aos turcos. No que foi considerado uma provocação a Washington, as autoridades de Ancara ordenaram à polícia, anteontem, que ocupasse as instalações do maior diário do país, o Zaman, após decisão judicial (isenta e imparcial ???) que o coloca sob tutela do governo. A declaração a negro – um dia vergonhoso para a imprensa livre – é da autoria da direcção do jornal, propriedade do clérigo muçulmano Fethullah Gülen, líder do poderoso movimento Hizmet, que contesta insistentemente as políticas de Erdogan e do AKP. Em 1999, após ter sido acusado de conspirar para derrubar o governo turco, Gülen fugiu para os Estados Unidos. Esta acção contra o Zaman é considerada um golpe duplo: ataque aos círculos muçulmanos que se opõem ao regime e retaliação contra os EUA por concederem asilo a Gülen e marginalizarem Ancara nos planos da Síria, o que, acrescente-se, acaba por deixar Erdogan numa posição algo semelhante à do presidente egípcio al-Sisi – combater a Irmandade Muçulmana, que tem o apoio de Obama. A sede do Zaman em Istambul foi palco de confrontos, depois da polícia forçar a entrada nas instalações do diário. Foram usados canhões de água e gás lacrimogéneo para dispersar centenas de pessoas que bloquearam o acesso ao edifício, gritando que a “imprensa livre não pode ser silenciada”. Várias ONG e entidades da UE já criticaram a decisão de colocar o Zaman e o seu “gémeo” em inglês “Today’s Zaman” sob administração do governo, num contexto de crescente tendência de silenciar a comunicação social dissidente. As críticas dos Estados Unidos também não se fizeram esperar: link

MC

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