Moscovo e Damasco divergem sobre objectivo da guerra

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fonte: IUCA

Oficiais dos batalhões de rebeldes sírios que recebem apoio dos EUA disseram à BuzzFeed News que começaram recentemente a combater contra outros rebeldes apoiados também pelos Estados Unidos. A confusão está lançada no terreno, com os EUA envolvidos numa guerra por procuração com … os EUA. “É muito estranho e não consigo compreender isto“, disse Ahmed Othman, comandante do batalhão rebelde Furqa al-Sultan Murad, apoiado pelos norte-americanos, relatando que a sua unidade foi atacada esta semana em Alepo por militantes curdos apoiados pelos EUA.

O Furqa al-Sultan Murad recebe armamento dos americanos e seus aliados por força de um programa de operações encobertas supervisionado pela CIA, que apoia os grupos rebeldes que lutam para derrubar o governo de Assad. Os militantes curdos recebem armamento norte-americano e apoio do Pentágono, como contrapartida da luta que travam contra o Estado Islâmico. Os curdos são conhecidos como Unidades de Protecção do Povo (YPG), a ala armada do PYD curdo, Partido da União Democrática, que tem aproveitado o apoio político e militar dos norte-americanos e russos (e até do regime sírio) para conseguir autonomia política e administrativa nos cantões que controlam no norte do país. Com o apoio da Força Aérea dos EUA têm combatido ferozmente o ISIS a leste do Eufrates. E por esta razão não são considerados pelos norte-americanos uma organização terrorista, o que tem enfurecido o governo turco, que os considera a maior ameaça para a segurança nacional. Mas não são apenas os curdos que progridem de leste para oeste ao longo da fronteira sul da Turquia. As Forças Democráticas Sírias, rótulo criado pelos EUA, são uma coligação de combatentes curdos, árabes sunitas e cristãos, dominada pelo elemento curdo e assentando na estrutura do YPG, milícia poderosa e bem organizada. PYD e YPG são considerados ramificações do PKK, Partido dos Trabalhadores do Curdistão. O YPG tem tido considerável relevo nos media por estar a ser bombardeado pelos turcos nas imediações do enclave de Azaz, junto à fronteira, ainda na posse dos rebeldes e jihadistas que lutam contra Damasco. Se o enclave desaparecer do mapa curdos e ISIS ficam mais uma vez frente a frente.

Os turcos têm tentado convencer a OTAN e os EUA a apoiar a sua estratégia para a região – derrube do regime sírio, interdição aos curdos da faixa fronteiriça Azaz-Jarabulus (extremidade norte da “SCUT” islâmica), estabelecimento de uma “no fly zone” e de zonas de segurança e invasão terrestre da Síria ao abrigo da R2P (responsabilidade de proteger) – e por esta razão, no rescaldo do atentado bombista de dia 17 em Ancara, apressaram-se a convocar os embaixadores dos países membros permanentes do Conselho de Segurança das N.U. para apresentar provas de que o ataque era da responsabilidade do YPG. Um diplomata ocidental disse ao Wall Street Journal que tal prova era inconclusiva e a liderança do YPG negou oficialmente a autoria (até agora as acções do YPG nunca envolveram viaturas armadilhadas, ataques suicidas ou atentados em território da Turquia). Será que o YPG estaria disposto a alienar o apoio político e militar recebido dos EUA em troca de um ataque bombista em Ancara? O ISIS, que apelava à realização de ataques contra a Turquia e seus militares na edição turca da sua revista, é quem mais teria a ganhar com o atentado. Também não é de excluir a hipótese de o MIT, os serviços secretos turcos, estarem envolvidos na acção, com aconteceu outras vezes no pretérito. Seria mais uma “false flag”.

Entretanto, à revelia do disposto na resolução 2254 do Conselho de Segurança das Nações Unidas, de 18 de Dezembro, com a qual concordaram todos os seus membros, incluindo Reino Unido, França e EUA, estes surgem agora a dizer à Rússia que pare de bombardear a al-Qaeda na Síria (Jabhat al-Nusra), para que o acordo de cessar-fogo possa avançar. A Nusra optou no pretérito pela inteligente estratégia de fazer coligações e alianças com outras organizações jihadistas que operam no norte e noroeste e infiltrou-se entre a população, o que torna mais difícil a identificação das respectivas forças para efeitos de implementar o disposto na resolução: que o cessar fogo “não se aplica ao ISIS, al-Qaeda, indivíduos, grupos, compromissos e entidades com elas relacionadas, e outros grupos terroristas” (sic). A resolução declara também a necessidade do respeito pela soberania, independência, unidade e integridade territorial da República Árabe da Síria e pelos objectivos e princípios da Carta das Nações Unidas. Porém, tudo indica que a resolução não é para cumprir, pelo menos integralmente, tantas são as pressões daqueles que não concordaram com as suas prescrições. Os estados mandantes da guerra civil síria investiram demasiado no projecto de mudança de regime e de partição do estado sírio para agora abdicarem das suas posições.

A Reuters relata que Vitaly Churkin discordou de Bashar al-Assad por este ter afirmado que pretende combater até recuperar todo o território, o que parece ser uma primeira brecha na estratégia conjunta sírio-russa sobre o objectivo da guerra e sobre o timing e conteúdo das negociações com a oposição. Palavras de Churkin: “A Rússia tem trabalhado para um acordo de paz na Síria e procurar recuperar o controle de todo o país seria um exercício fútil que permitiria que o conflito se arrastasse indefinidamente.” Churkin disse ainda mais, conforme se pode ler na notícia, mas para bom entendedor meia palavra basta. Moscovo dirá a Assad quando e em que termos deve negociar. Para já a palavra de ordem russa para Damasco é não perder de perspectiva o plano de cessar-fogo, apesar das recentes vitórias das forças armadas sírias e seus aliados.

A Al Masdar News (AMN) noticia que as forças da coligação fecharam o cerco a 800 combatentes do ISIS no distrito de Jibreen, a leste da cidade de Alepo (ver mapa), nas imediações da via Alepo-Raqqa. Os terroristas não têm escape possível e apenas lhes resta a rendição ou combater até ao fim. Mas serão mesmo 800? Não vamos saber.

MC

Aditamento:
Numa declaração à imprensa o TAK confirmou que Abdulbaki Sonmez executou o atentado de Ancara, como parte de uma campanha alargada contra as operações das forças armadas no sudeste do país. O TAK, “Falcões para a Liberdade do Curdistão/Kurdistan Freedom Hawks” é um grupo que esteve outrora ligado ao PKK.

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