Obama e o pecado original

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Resposta de Barrack Obama a um jornalista depois da cimeira US-Asia na Califórnia, em 16 Fev, (espaço 21:30), a fazer eco da frustração da administração norte-americana quanto à falta de progressos no acordo de cessar-fogo na Síria, com início previsto para 19 Fev:

“Antes de tudo, se olhar para trás, para as transcrições, o que eu disse foi que a Rússia tem sustentando Assad durante todo este tempo. O facto de Putin ter enviado finalmente as suas tropas e aeronaves e investir nesta operação militar maciça, não foi testemunho de uma grande força [de Assad]. Foi testemunho da fraqueza da posição. Testemunho de que se alguém é forte, então não tem de enviar o exército para sustentar o aliado. (…) Você envia o exército quando o cavalo em que apostou não é eficaz. E isso é exatamente o que está a acontecer. Agora o que eu disse foi que a Rússia se iria envolver num atoleiro. Absolutamente. Vai. Se há alguém que pensa que de alguma forma a guerra termina porque a Rússia e o regime têm feito alguns avanços iniciais – cerca de três quartos do país ainda está sob controle de outros que não Assad – [a guerra] não vai parar a qualquer momento. Digo-o de passagem, sem prazer. Isto não é uma competição entre mim e Putin. A questão é como podemos parar o sofrimento, estabilizar a região, parar a emigração maciça de refugiados que estão passando por momentos tão terríveis, acabar com a violência, parar o bombardeamento de escolas e hospitais e civis inocentes, parar de criar uma zona de segurança para o ISIS. E não há nada que tenha acontecido nas últimas  semanas que indique que estes problemas foram resolvidos. E é isso que quero dizer com atoleiro. Putin pode pensar que está preparado para empenhar as forças armadas russas numa ocupação permanente da Síria. Isso vai ser muito caro. Vai ser um negócio pesado. E se olhar para o estado da economia russa, provavelmente não é o melhor para a Rússia. O que seria mais inteligente para a Rússia era trabalhar com os Estados Unidos e outras parceiros da comunidade internacional para tentar negociar algum tipo de transição política. John Kerry, trabalhando com o colega russo, disse que vai haver um cessar das hostilidades em poucos dias. Veremos se é possível ou não. É difícil de conseguir, porque tem havido muito derramamento de sangue. E se a Rússia continuar num bombardeamento indiscriminado do tipo que temos visto, julgo que é justo dizer que não vai ver qualquer aceitação pela oposição. E sim, a Rússia tem grandes forças armadas. Obviamente, um grupo de rebeldes não vai ser capaz de competir com a maquinaria da segunda potência militar do mundo. Mas isso não resolve realmente o problema de estabilizar a Síria. E a única forma de o fazer é por via de algum tipo de transição política. Veremos o que acontece nos próximos dias. E vamos continuar a trabalhar com os nossos parceiros que estão focados em derrotar o ISIS, ver como podemos trabalhar em conjunto para tentar implementar uma solução política mais duradoura do que aquilo que se consegue com bombardeamentos aéreo de escolas e hospitais. Mas é duro. Não estou iludido de que vai ser fácil. Um país foi destruído porque Assad estava disposto a destruí-lo, e perdeu repetidamente oportunidades para tentar chegar a uma transição política. E a Rússia tem sido parceiro de todo este processo. A verdadeira questão que devemos colocar é o que a Rússia pensa que ganha se ficar como aliado num país completamente destruído, no qual tem de gastar perpetuamente biliões de dólares em fomento. Não é um grande um prémio. Infelizmente o problema é que tem efeitos colaterais em todos, e é nisso que temos de nos concentrar. Uma coisa quero acrescentar, não obstante – isso não vai distrair-nos de nos continuarmos a concentrar no ISIL. E continuamos a pressioná-lo duramente no Iraque e na Síria. Não vai parar. E se pudermos obter uma transição política na Síria, permitir-nos-á coordenar de forma mais eficaz não apenas com a Rússia, mas com outros países da região para nos concentrarmos naqueles que representam a maior ameaça directa para os Estados Unidos.”

O presidente Obama regressou ao pecado original. Ou então nunca dele se afastou. Os EUA podiam estar num ponto muito mais avançado no combate à ameaça do ISIS e da al-Qaeda, tanto no Iraque como na Síria, mas como se escreveu anteriormente o Estado Islâmico ajuda a conter a influência xiita no Médio Oriente e Israel prefere o ISIS ao Hezbollah, o que também corre no interesse de outros aliados dos Estados Unidos: Turquia e monarquias do Golfo. Obama, apoucando os sucessos operacionais do adversário, diz que a coligação Síria-Rússia-Irão-Hezbollah ainda não controla cerca de 3/4 do país. É verdade. Mas grande parte desses 3/4 são desabitados. E Obama sabe-o.

Um relatório de 2005 preparado por investigadores para o Congresso dos EUA evidencia que a Administração ponderava activamente derrubar o regime sírio, bem antes portanto dos levantamentos populares da Primavera Árabe de 2011, o que demonstra que o incentivo norte-americano à oposição síria não teve a ver com o apoio a um “levantamento democrático”. O relatório permite concluir que a presente política norte-americana para a Síria é o desenvolvimento natural da política desenhada em Washington há mais de uma década, com o objectivo de derrubar o governo de Damasco. De acordo com os investigadores, o ímpeto para derrubar Assad tinha a ver com a remoção dos obstáculos impeditivos ou restritivos da política de Washington para o Médio Oriente, relacionados com o fortalecimento de Israelconsolidação do domínio norte-americano no Iraquepromoção do mercado livre e economia de empresa, etc… A democracia não estava na agenda. Esta perspectiva já está mais do que demonstrada por investigadores e analistas mas não se perde nada por insistir no ponto.

O documento, da autoria de Alfred B. Prados e Jeremy M. Sharp, analistas da “Middle East Policy, Foreign Affairs, Defense, and Trade Division”, de 10 Jan 2005, pode ser consultado aqui:  CRS Report for Congress – Order Code RL32727 – Syria: Political Conditions and Relations with the United States After the Iraq War.

MC

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