Terá Obama facilitado a entrada da Rússia e do Irão na Síria?

A geopolítica é uma actividade complexa e os interesses nacionais dos principais protagonistas não são do conhecimento do público mais atento, sendo comum até que os analistas interpretem de forma díspar os sinais exteriores da estratégia adoptada. Dentro do aparelho de Estado dos maiores actores internacionais, competindo aos governos a direcção e execução da política externa, há outros interesses que pressionam e se intrometem, alinhando com as orientações definidas por aqueles ou delas divergindo. O caso dos EUA é, neste sentido, paradigmático. Há mais do que um alinhamento ou facção dentro da administração norte-americana.

Centremo-nos na política do presidente Obama para a Síria, na qual as acções parecem contradizer a retórica. Desde pelo menos 2012 que as acções em concreto têm parecido querer manter Assad no poder, mesmo que Obama e outros tenham afirmado o inverso. Recordemos, por exemplo, os inúmeros apelos de políticos e altos quadros da administração norte-americana a favor da implementação de uma zona de interdição aérea no norte do país, aos quais Obama sempre resistiu. Ou a recusa do presidente em bombardear as forças do regime sírio depois de terem surgido dúvidas sobre quem seriam os verdadeiros responsáveis pelo ataque com armas químicas em Goutha, imediatamente imputado ao regime de Assad mas quase certamente executado pelos rebeldes, com a conivência dos serviços secretos turcos. Parece claro que Obama não terá resistido sozinho à opção belicista de destruir Assad. O presidente teve apoiantes. Há uma facção que pensa como ele.

Li o seguinte comentário num blog de relações internacionais:

Esta facção terá feito um acordo com a Rússia e o Irão, para que limpassem a Síria de organizações terroristas. A Rússia não teria ousado desafiar os EUA, nos termos em que tal desafio tem sido apresentado pela imprensa controlada pelos neo-conservadores, que é a esmagadora maioria no Ocidente. O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Lavrov, disse, no dia em que o acordo nuclear com o Irão foi alcançado, que estão agora criadas as condições para que o Irão seja parte na solução do problema criado pelo ISIS. Em 4 de Setembro de 2015, Putin tinha dito que a coligação liderada pelos americanos não estava a ser muito eficaz na campanha de bombardeamentos, mas que a Rússia ainda não estava pronta para o desafio. A imprensa e os porta-vozes das forças armadas fingiram um enorme espanto quando a concentração de meios russos na Síria se tornou evidente, em meados do mês, tendo a campanha aérea começado no dia 30 de Setembro. Churkin, o embaixador da Federação Russa na ONU, ficou naturalmente perplexo com a súbita cobertura explosiva do facto na imprensa ocidental e disse publicamente que não compreendia tal reacção porque os EUA queriam que Assad continuasse no poder. Não foram decretadas sanções à Rússia, a OTAN não solicitou à Turquia que fechasse o estreito de Bósforo e nenhuma unidade das frotas dos EUA ou da UE barraram a rota dos navios russos. Como o acordo nuclear com o Irão estava em vias de finalização, os norte-americanos e os europeus retiraram os mísseis Patriot da Turquia.

O que se retira daqui? Que os Estados fazem acordos secretos entre eles e o referido supra terá sido feito no interesse da Rússia. Porque é que Obama e os seus apoiantes alinharam? Terá sido porque alguém se disponibilizou para combater a ameaça apresentada pelo jihadismo belicista na Síria sem que os EUA tivessem de trair os seus aliados do Médio Oriente? Ou porque não era viável que as forças armadas norte-americanas executassem essa tarefa na Síria sem atacar também o exército de Assad?

Serão estas facções mesmo reais, ou nos seus níveis superiores são meramente activadas como as teses e antíteses Hegelianas, como solução para o que já está planeado? Se isto é uma luta geopolítica real, porque é que a “facção Obama” (ou talvez a totalidade da elite do poder) permitiu e facilitou a entrada da Rússia e do Irão no jogo? Será para sermos amedrontados por uma pequena e assustadora confrontação russo-americana, para a qual a solução seria armar a ONU em vez dos países individualmente considerados? Desconheço qual seja o plano, mas garanto que a história que nos é contada pela imprensa é uma fachada para encobrir a história real, para camuflar um outro propósito.

É uma perspectiva bizarra, não é?

MC

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