O “acordo para a Síria” e a corrida para Raqqa

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O “novo” acordo para a Síria patrocinado pelo ISSG (International Syria Support Group) pode ser lido aqui. Os objectivos são três: acesso da ajuda humanitária às áreas cercadas; cessar-fogo a nível nacional; avançar para a transição política.

Para entendermos o que está em causa, há que ter presente que após a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003, os xiitas tomaram o poder em Bagdade. No nordeste do país, os curdos conseguiram um significativo grau de autonomia. Votados ao abandono e sem quem os representasse políticamente no processo de “state building” iraquiano, os sunitas, com maior ou menor aderência das tribos, insurgiram-se e acolheram a AQI/ISIS/ISIL/Estado Islâmico, engrossando fileiras onde já militavam muitos dos que haviam servido no aparelho militar e securitário de Saddam Hussein. Como o problema tem de se resolver – reduzir a base de apoio do ISIS e dar representatividade aos sunitas – EUA, certos estados-membros da UE e potências da região repescaram ambições antigas de redesenho de fronteiras (revogando total ou parcialmente o tratado Sykes-Picot), agora com o pretexto da urgente necessidade da criação de um “Sunistão“, um estado sectário no oeste do Iraque e no leste da Síria, em territórios controlados pelo ISIS (e por outras organizações jihadistas, em bom rigor, como é o caso do noroeste da Síria onde a al-Qaeda é muito influente). Israel, monarquias do Golfo e Turquia defendem empenhadamente este projecto, na expectativa de que contenha a influência do “crescente alauíta-xiita” na região e dificulte o apoio do Irão ao Hezbollah. Um ministro de Israel afirmou recentemente que ninguem gostaria de ver a frota do Irão navegar em águas do Mediterrâneo.

Se o acordo entrasse imediatamente em vigor Assad deixaria de ter autoridade e jurisdição sobre grande parte do país, especialmente sobre o centro e o leste, perdendo para a “Jihad” e para a “Sharia” cidades como Palmyra, Raqqa ou Deir Ezzor. Vemos então o governo, Rússia e Irão pugnar pela unidade da Síria secular – principal objectivo do regime – e os seus adversários envidar esforços para que as operações militares parem, porque se continuarem os rebeldes e terroristas perderão terreno, com prejuízo para o projecto do Sunistão. Assim sendo, a prioridade agora é Raqqa e na corrida para o controle da cidade alinham, de um lado, Assad e apoiantes, e do outro lado, EUA e aliados.

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fonte: southfront.org

Raqqa fica no leste da Síria e está na posse do Estado Islâmico, bem como demais cidades ao longo do Eufrates. Deixar Raqqa e os campos de petróleo na posse da coligação anti-Assad seria uma perda enorme para o governo. Para atingir o objectivo de manter o país unido, a coligação Síria-Rússia-Irão-Hezbollah tem de conquistar Raqqa quanto antes e continuar a progredir para leste. Segundo a Southfront, a coligação pro-Síria deu agora um primeiro grande passo: uma brigada do Exército Árabe Sírio (EAS) atacou posições do ISIS ao longo da via Ithriyah-Raqqa, tomando Tal Abu Zayhn. O objectivo é o aeródromo militar de Tabaqah, estando em curso a fase de concentração de forças para o ataque principal. Entretanto, os preparativos dos EUA no leste da Síria estão também em marcha. Os norte-americanos pretendiam que os curdos (agora integrados numa coligação denominada Forças Democráticas Sírias, que incluí outras forças árabes) atacassem Raqqa a partir de norte, mas estes não se mostraram interessados em lutar por território não lhes seria atribuído futuramente. O seu objectivo político e militar é a implementação do projecto Rojava (união dos cantões curdos no norte da Síria). Então os EUA surgiram com um novo plano, cujos detalhes ainda escasseiam: ampliação de uma pista de aviação na zona agrícola de  Rumeilan/Abu Hajar (ver mapa) no Curdistão sírio, para ser usada no apoio a futuras operações. Fala-se no envolvimento de uma ou duas brigadas da 101ª Divisão Aerotransportada e de forças da Arábia Saudita, o que Riade já confirmou. O primeiro-ministro russo, Medvedev, advertiu que uma ofensiva terrestre estrangeira na Síria apresenta um elevado risco de escalada do conflito.

MC

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