Entre 1568 e 1918 Rússia e Turquia estiveram em guerra 12 vezes. Como vai ser agora?

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fonte: “La Repubblica”

“First things first!” Comecemos pela avaliação da South Front:

“A operação de Alepo entrou na sua fase decisiva, cujo objectivo é tomar o controle da extensão completa da fronteira com a Turquia. O Ocidente esperara que as forças do governo sírio tivessem ficado atoladas em Latakia pelo menos até Abril, quando a mudança do tempo impusesse uma pausa operacional. Esta área é vital para assegurar o envio de reforços e munições pela Turquia, razão pela qual o seu controle é motivo de vida ou de morte para os islamistas. Os combates em Latakia e Alepo estão a reter um número significativo de forças sírias que de outra forma poderiam ser usadas para aniquilar os desmoralizados militantes da província de Idlib. Mas agora, para despeitar o Ocidente, os terroristas estão à beira de derrota completa no noroeste da Síria. A vitória libertará forças consideráveis que poderão de seguida ser usadas para derrotar os militantes de Idlib. Essa derrota, por sua vez, destruirá a frente terrorista, não deixando aos militantes outra escolha senão fugir para a Turquia. (…)”

Na página do Institute for the Study of War não se escreve muito diferente. A análise é detalhada e vale a pena ler:

“Os ganhos do regime de Assad em Alepo alteram o equilíbrio do poder no norte da Síria” – Assad regime gains in Aleppo alter balance of power in northern Syria

Como é sabido, as frentes de batalha são dinâmicas e, como tal, é possível que tenhamos notícia de contra-ataques rebeldes bem sucedidos, para posteriormente voltarem a perder as posições recuperadas para a coligação que está na ofensiva. Porém, conforme os relatos, no noroeste do país os jihadistas estão a desistir de combater. Os incessantes bombardeamentos tiveram também o objectivo de os desmoralizar e as opções agora são estas: i) retirar para a Turquia; ii) lutar até ao martírio; iii) rendição e vestir a camisola do regime.

No que concerne ao Médio Oriente, a diplomacia de Putin tem obtido ganhos nas Nações Unidas, conseguindo fazer aprovar no Conselho de Segurança a resolução 2254. Nesta tessitura, a campanha do governo sírio contra a jihad internacional continuará com o apoio da Rússia, Irão e outras forças aderentes. O objectivo é destruir os terroristas e as forças que os apoiam, o que é aliás exigido pela resolução.

“Reiterates its call in resolution 2249 (2015) for Member States to prevent and suppress terrorist acts committed specifically by Islamic State in Iraq and the Levant (ISIL, also known as Da’esh), Al-Nusra Front (ANF), and all other individuals, groups, undertakings, and entities associated with Al Qaeda or ISIL, and other terrorist groups, […] and to eradicate the safe haven they have established”

Como já referido, o objectivo imediato das coligação anti-jihad é fechar a fronteira com a Turquia e expulsar os insurgentes de Alepo, para o que contarão com um reforço de 6.000 homens vindos do Irão, segundo dá conta Elijah Magnier. Os EUA, não se tendo oposto à resolução 2254, é natural que por ora deixem as águas correr, tanto mais que alguém está finalmente a combater com sucesso a internacional jihadista. Mas como nos Estados Unidos há várias mundivisões, alinhamentos, fileiras e interesses não harmonizáveis, a imprensa neo-conservadora e o lobby pro-Israel não deixam de clamar por uma mudança de política para a Síria com intervenção militar, como se lê, por exemplo, aqui:

“The conventional wisdom is that nothing can be done in Syria, but the conventional wisdom is wrong. There is a path toward ending the horror in Aleppo — a perfectly realistic path that would honor our highest ideals, a way to recover our moral standing as well as our strategic position. Operating under a NATO umbrella, the United States could use its naval and air assets in the region to establish a no-fly zone from Aleppo to the Turkish border and make clear that it would prevent the continued bombardment of civilians and refugees by any party, including the Russians. It could use the no-fly zone to keep open the corridor with Turkey and use its assets to resupply the city and internally displaced people in the region with humanitarian assistance.”

Se, ao contrário do que aconteceu no Iraque, os EUA se empenharam pouco na Síria, o mesmo não se passa com os sauditas, qataris e turcos, que investiram demasiado no projecto de mudança de regime e de criação de um emirado sunita sobre as cinzas da Síria para agora ficarem de braços cruzados. Os rebeldes – Jaysh al-Islam, Ahrar ash-Sham, Exército dos Mujahedeen, Exército Sírio Livre, etc. – foram chamados a Ancara para receber instruções e os sauditas ofereceram tropas para invadir a Síria (proposta irrealista, segundo os entendidos), o que só pode ser encarado como incentivo a que terceiros o façam. Pelo que se vai percebendo, Ergodan é o candidato mais ansioso e porventura mais temerário. Um tal Ibrahim Karagül, colunista e fervoroso apoiante do sultão, veio a público defender que a actuação de Teerão e Moscovo na Síria é equiparável à guerra contra a Turquia e que esta deve intervir militarmente. Podemos inteirar-nos da argumentação neste post.

Por remissão para o mapa publicado no “La Repubblica”, a aludida operação teria um duplo propósito: (i) manter aberta a “SCUT” de reabastecimento e recompletamento das forças da jihad; e (ii) obstar à unificação dos cantões curdos no norte da Síria (Rojava). A “SCUT islâmica” está também no centro do planeamento operacional das forças sírio-russas-iranianas, mas com objectivo inverso: (i) fechar a via; (ii) selar a fronteira; (iii) destruir os jihadistas. Estimou-se que o efectivo de combatentes estrangeiros tenha aumentado de 20.000 para 38.000, se considerarmos as várias organizações de insurgentes (ver pdf). Os russos estão cientes dos preparativos turcos e já disseram que, a acontecer, darão conta do recado. No Comando Sul, iniciaram exercícios de prontidão operacional com forças aerotransportadas e unidades de transporte aéreo estratégico. Avultam, entre outras, a 56ª Brigada Aerotransportada de Assalto e a 7ª Divisão Aerotransportada de Guardas, de alerta em Kamyshin e Novorossiysk. São unidades de elite com experiência nas guerras da Chechénia.

Erdogan continua a chantagear a União Europeia com os refugiados e já li que as partes terão discutido sobre uma contrapartida financeira de 6 biliões de euros. A Foreign Policy analisa num artigo recente a desastrosa política externa de Erdogan. Para ajudar à festa, os turcos foram informados que os EUA não consideravam o YPG curdo uma organização terrorista, o que fez com quem o embaixador norte-americano fosse imediatamente convocado para explicações. A estratégia expansionista de Erdogan está a esboroar-se e a Turquia será a maior variável dos próximos desenvolvimentos na região. Será que avança sem o apoio da OTAN e dos EUA? Elijah Magnier escreveu algures que apesar de ser improvável que Erdogan dê a ordem, os russos celebrariam se o fizesse. Entre 1568 e 1918 Rússia e Turquia estiveram em guerra 12 vezes.

MC

Aditamento: Parece confirmar-se a vontade da Turquia de entrar na Síria. O Hurriet cita o Estado-Maior General turco, que defende que as forças não devem entrar em solo sírio sem a cobertura de uma resolução do Conselho de Segurança das N.U.. Estará o Exército a segurar Erdogan? Ou será que este vai despedir mais generais até que façam o que pretende? Os russos estão a postos, com várias unidades do Comando Sul em alerta e pretendem enfrentar as forças turcas na Síria, não se vislumbrando portanto fundamento para uma intervenção da OTAN.

 

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