No rescaldo de Geneva III

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Turki Al-Faiçal, fonte Le Monde

Esta entrevista do príncipe saudita Turki al-Faiçal ao Le Monde a responsabilizar Assad pela tragédia síria é elucidativa das dificuldades em se conseguir um consenso mínimo nas futuras negociações e explica, em parte, porque é que as reuniões de Geneva III terminaram pouco após o tiro de partida.

Le Monde: “Quelle solution préconisez-vous à cette crise?
Turki: Mettre un terme aux combats est la première chose. On doit aussi mettre les responsables du carnage face à leurs responsabilités. Qui est le plus grand terroriste en Syrie ? C’est Bachar Al-Assad. Il est responsable de plus de 300 000 morts, de plus de 50 000 emprisonnements sans procès … Tout autant que le Front Al-Nosra (la branche syrienne d’ Al-Qaida) et le soi-disant Etat islamique (EI) – (…) – sont exclus des négociations, je ne vois pas pourquoi Bachar Al-Assad ne devrait pas en être exclu. Il a fait plus de mal à la Syrie que Faech et le Front Al-Nosra.
Malheureusement, avec l’intervention russe, la position de Bachar Al-Assad est renforcée. Cette intervention est inexplicable et inacceptable car Bachar mérite le même sort qu’Abou Bakr Al-Baghdadi (le calife autoproclamé de l’EI).”

Pressionado pelos sauditas e pelos turcos, o grupo da oposição síria terminou as conversações em Geneva antes de elas se terem iniciado, refere o “The Wall Street Journal”:

The Syrian opposition abruptly withdrew from peace talks in Geneva this week under pressure from Saudi Arabia and Turkey, two of the main backers of the rebels, according to diplomats and at least a half-dozen opposition figures.

Para além de terem sabotado as negociações, os sauditas ofereceram tropas terrestres para invadir a Síria caso os EUA assumissem o comando das operações, mas ninguém os levará a sério. Se as suas tropas foram fortemente sovadas no Iémen, imagine-se o resultado ao enfrentar a coligação Síria-Rússia-Irão-Iraque-Hezbollah, presentemente a força mais bem treinada e temida do Médio Oriente. Tamanha disponibilidade é apenas um ferrão na administração norte-americana, para a incitar a uma guerra com a Rússia ou com o Irão.

Na semana passada, John Kerry, teria exigido que a Rússia suspendesse os ataques aéreos à oposição – o que muitos preferiram encarar como crítica implícita a Moscovo pela falência das conversações – e que tanto rebeldes como o regime deveriam permitir o acesso da ajuda humanitária às populações cercadas. Segundo a ABC, Erdogan tê-lo-á secundado, acrescentando que “Genebra” não fazia sentido enquanto a Rússia e o regime persistissem com os ataques. Mas talvez Kerry não tenha sido bem compreendido, a fazer fé em notícia do Middle East Eye (MEE) – o secretário de Estado teria “culpado a oposição” pela continuação da ofensiva, sendo de esperar mais 3 meses de bombardeamentos que a vão “dizimar”. Em Londres, à margem da conferência de doadores para a Síria, terá dito “Não me culpem – vão e culpem a vossa oposição“, segundo o MEE, e “O que pretendem que faça? Guerra com a Rússia?” Um porta voz do Departamento de Estado desmentiu mas um tweet da embaixada dos EUA parece confirmar o entendimento inicial.

U.S. Embassy Syria @USEmbassySyria
#SecKerry on bombardment of civilians in #Syria: This has to stop. But it’s not going to stop by walking away from the table or not engaging

Analistas independentes franzem o sobrolho às pressões vindas dos apoiantes dos rebeldes. Os EUA procuram de alguma forma pôr fim ao conflito, tanto mais que o “atoleiro russo na Síria” era afinal um bom plano de operações. Os americanos agora têm pressa, porque perceberam que terão influência-zero na decisão final se governo sírio e Rússia tiverem tempo de acabar com a oposição armada. Precisam de um cessar-fogo para se manterem relevantes no “processo da Síria”.

Tudo indica que os ataques sírio-russos vão continuar, uma vez que a ofensiva está estribada na Resolução 2254 das Nações Unidas:

[The UNSC] Reiterates its call in resolution 2249 (2015) for Member States to prevent and suppress terrorist acts committed specifically by Islamic State in Iraq and the Levant (ISIL, also known as Da’esh), Al-Nusra Front (ANF), and all other individuals, groups, undertakings, and entities associated with Al Qaeda or ISIL, and other terrorist groups, as designated by the Security Council, and as may further be agreed by the ISSG and determined by the Security Council, pursuant to the Statement of the ISSG of 14 November 2015, and to eradicate the safe haven they have established over significant parts of Syria, and notes that the aforementioned ceasefire will not apply to offensive or defensive actions against these individuals, groups, undertakings and entities, as set forth in the 14 November 2015 ISSG Statement

Os insurgentes das províncias de Aleppo e de Idlib são oficialmente aliados da al-Nusra, que é a al-Qaeda da Síria. Estão abrangidos pela Resolução 2254 e são alvo legítimo dos ataques. Quem censura Kerry por ter criticado o abandono da oposição em Geneva não conhece a resolução. O plano americano e russo para a paz é o que consta do comunicado e tem por objectivo acabar com a guerra através de cessar-fogo, mas apenas (i) quando a oposição concordar com um, e (ii) quando os rebeldes cortarem laços com a al-Qaeda e o ISIS, o que recusam fazer. Assim sendo, a ofensiva continuará até final, conforme acordado pelo Conselho de Segurança.

Entretanto, o pesadelo de Recep Tayyip Erdogan de uma fronteira curda com a Turquia aproxima-se da realidade à medida que as Unidades de Protecção do Povo (YPG), braço armado do PYD, partido curdo da Síria, se expandem tanto para sul como para leste do cantão de Afrin, deixando os rebeldes turcomanos e outros que os turcos apoiam em vias de perder a parte norte da província de Alepo. Voltar-se-á a Erdogan e à Turquia num próximo texto.

MC

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