Os erros do Estado Islâmico e o futuro da al-Qaeda na Síria

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fonte: whaleoil.co.nz

Vem no seguimento do post anteriorElijah Magnier escreveu no Twitter sobre os erros do ISIS e o futuro da Jabhat Al-Nusra (al-Qaeda na Síria). Traduzindo e editando:

Abu Mus’ad al-Zarqawi, comandante da al-Qaeda no Iraque (AQI), ignorou as directivas de Ayman al-Zawahari, líder operacional da central da al-Qaeda, para não atacar os xiitas do Iraque. Al-Zarqawi atacou os xiitas e sunitas que dele discordavam e a guerra sectária rebentou. Se tivesse atingido apenas o ocupante norte-americano teria tido os xiitas do Iraque e os estados da região que se opõem aos EUA (Síria, Irão) com ele. Zarqawi poderia ter sido mais influente no Iraque.

O líder do Estado Islâmico (sucessor da al-Qaeda no Iraque, AQI) Abu Bakr al-Baghdadi cometeu mais do que um erro. Rejeitou a indicação da central da al-Qaeda para confinar a sua organização ao Iraque e deixar a Síria para uma entidade autónoma da al-Qaeda, a Jabhat al-Nusra. As forças de Baghdadi infiltraram-se em massa na Síria e atacaram a Jabhat al-Nusra. Até esse momento a al-Nusra mantinha um baixo perfil, combatia com sucesso e ia ganhando um número significativo de seguidores na Síria. Poderia ter aglutinado muito mais gente se tivesse sido deixada sozinha. Mas a guerra entre o E.I. e a al-Nusra acabou por enfraquecer ambas as organizações.

Baghdadi cometeu um segundo erro pouco depois da conquista de Mosul. Declarou guerra a todos os outros grupos do Iraque, e também à Arábia Saudita, Jordânia, curdos e outros estados. Incitou o Ocidente contra o Daesh através de marketing e videos chocantes. Sem isto poderia ter ganho mais apoio externo de outros estados sunitas. Se não tivesse declarado guerra ao mundo inteiro (com excepção da Turquia) o Iraque seria algo diferente hoje. Teria eventualmente Bagdade e o sul do país sob controle.

O Estado Islâmico do Iraque e da Síria é hoje combatido por todos. Vai ser derrotado e transmutar-se-á numa organização terrorista clandestina (sem território para administrar).

As conversações de Genebra em curso, sobre a Síria (Genebra III), estão provavelmente destinadas ao insucesso. Mas são indispensáveis, porque as guerras não são eternas. Os rebeldes apoiados pela Arábia Saudita, Qatar, Turquia e EUA continuam a ser batidos na Síria. A única forma de os respectivos governos não perderem completamente o “investimento” feito passa por obter concessões à mesa das negociações.

Já se fez uma breve menção sobre os objectivos da oposição síria mais radicalizada: aqui, aqui e aqui. Os principais grupos jihahistas – Estado Islâmico, Jabhat al-Nusra (al-Qaeda na Síria) e Ahrar al-Sham não participam nas conversações. Nos termos da Resolução 2254 das Nações Unidas qualquer cessar-fogo na Síria excluirá estas organizações e os grupos com elas alinhados.

Excerto do comunicado, de 18 de Dezembro:

… to prevent and suppress terrorist acts committed specifically by Islamic State in Iraq and the Levant (ISIL, also known as Da’esh), Al-Nusra Front (ANF), and all other individuals, groups, undertakings, and entities associated with Al Qaeda or ISIL, and other terrorist groups, as designated by the Security Council … and notes that the aforementioned ceasefire will not apply to offensive or defensive actions against these individuals, groups, undertakings and entities …

Os grupos que os sauditas encaminham para Geneva eram aliados e combatiam ao lado da Nusra. No norte da Síria, a Jaish al-Fath, aliança entre a frente Nusra, Ahrar al-Sham e outros grupos do Exército Sírio Livre (ESL) apoiado pelos EUA, conquistaram Idlib em comunhão de esforços. Mas agora das duas uma: ou o ESL e outros da oposição se demarcam da al-Nusra ou vão na enxurrada com ela.

A Reuters relatou há 2 dias que a Nusra e a Ahrar al-Sham encetaram negociações destinadas a uma fusão, mas que falharam. Elijah J. Magnier refere as consequências para o grupo:

Há mais de um ano a Al-Qaeda pediu à Ahrar al-Sham que se unisse mas esta recusou. Assim sendo, a notícia da rejeição não é novidade.

A frente Nusra tentou manter-se discreta, promovendo outros rebeldes sírios, devido às suas conexões com a central da al-Qaeda, que a prejudicavam política e internacionalmente. À superfície, a Nusra teve sucesso na integração com outros grupos. A criação da “Jaish al-Fath” foi uma jogada inteligente, mas não vai durar. Funcionou até que Moscovo se envolveu directamente na guerra. Agora a Rússia impôs-se aos EUA e também aos actores regionais. Uma vez que os EUA não pretendem enfrentar a Rússia na Síria, o jogo é outro: Os jihadistas salafitas deixaram de ser tolerados.

A única forma de a Arábia Saudita, Qatar e Turquia minimizarem as perdas sofridas na Síria é fazer distanciar os seus proxies da al-Nusra. Os russos estão cientes disto. O que os sauditas, turcos e qataris perderam no terreno não irão ganhar com a diplomacia em Genebra. A Jordânia já recomendou aos seus apoiados que se demarquem da Nusra. O Qatar, Turquia e Arábia Saudita seguir-lhe-ão os passos.

A Nusra sabe o que se segue. Apesar da profunda e enorme animosidade Nusra-ISIS, não lhes resta senão cessar as hostilidades. Não significa que se fundam. O ISIS está em situação mais difícil.

A Nusra ainda tem uma carta na manga, para um cenário em que o ISIS e aquela terminem como os únicos “inimigos de todos”, na Síria: a maioria dos seus combatentes são sírios. Podem facilmente dispersar-se pelas comunidades de origem e esperar por melhores dias. Já aconteceu no pretérito no Iraque durante o pico do “Despertar sunita”.

É a perspectiva de Magnier, a complementar com um comentário em assintonia remetendo para as diferenças entre Síria e Iraque, apesar de convergente na questão de a Nusra se ver forçada à clandestinidade, à semelhança aliás de qualquer outra organização terrorista. Porque a Síria ainda é um estado funcional, com uma administração, burocracia e serviços de informações, em suma dispondo de um aparelho securitário apto a localizar e capturar terroristas, ao contrário do Iraque que foi “debaathificado” pela administração Bush. Fica a questão: saber se a população ousaria dar guarida à Nusra se e quando os serviços de segurança sírios puderem voltar a esquadrinhar o país à caça de insurgentes.

MC

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