Porque é que a prioridade de Assad é derrotar a al-Qaeda e aliados e não o ISIS?

Abu Bakr al-Baghdadi (ISIS), Bashar al-Assad (Presidente da Síria) e Abu Mohammad al-Julani (líder e emir da al-Qaeda na Síria)

Um post de Elijah J. Magnier, reconhecido conhecedor da guerra do Iraque e da Síria.

Muita especulação foi veiculada acerca das razões pelas quais a Rússia, Síria, Irão e Hezbollah do Líbano atacam principalmente, embora não exclusivamente, a al-Qaeda fi bilad al-Sham (Jabhat al-Nusra) e os seus aliados, em vez do chamado “Estado Islâmico”, também conhecido por “ISIS”, “ISIL, “IS” ou “Daesh”. Durante anos, numerosos analistas do Médio Oriente e outros académicos acreditaram conscienciosamente que existia uma espécie de aliança entre Assad e Abu Bakr al-Baghdadi, líder do ISIS. Este tipo de ignorância sobre a dinâmica da região emana de uma antiga “teoria da conspiração” que logrou contaminar globalmente tanto a imprensa como investigadores de prestígio.

Apesar disso, o comando das Forças Armadas sírias e aliados tem evitado confrontos desnecessários com o ISIS nas várias frentes em diversas ocasiões. Em suma, é dito que o ISIS é “mais fácil e menos urgente de derrotar do que a al-Qaeda na Síria”. E também que se os principais actores da região e os EUA beneficiaram da presença e expansão do ISIS na Síria e no Iraque, por variadas razões, também Assad e seus aliados beneficiaram.

A resposta a este tipo de questões é dada por um decisor de topo no comando de operações conjuntas em Damasco, que incluí a Rússia, Síria, Irão e Hezbollah (3+1 que difere do comando de Bagdade, conhecido por 4+1 porque incluí o Iraque).

As razões que levaram o regime Sírio e seus aliados a não centrarem os esforços no combate ao ISIS são múltiplas, sendo as mais importantes as seguintes:

– O ISIS é, em teoria, o inimigo de todos os países e organizações. A maioria dos decisores da região e do mundo consideram o ISIS um vírus que, mais tarde ou mais cedo, será erradicado. Muitos países da região envolvidos na guerra da Síria preferem manter-se dele distantes e evitam que o seu nome seja com ele conotado. O ISIS é um problema para a maior parte desses países.

– O ISIS não tem um horizonte regional ou internacional. Como tal, o grupo é excluído de qualquer solução potencial na Síria, no Iraque ou em qualquer país onde esteja presente. Ademais, o ISIS está empenhado em atrair toda a espécie possível de inimigos, atacando todo e qualquer governo ou organização que não que não aceite a sua liderança, mesmo aqueles que partilham a sua ideologia e credo, como a al-Qaeda e os Taliban.

– Não tem cobertura política nem guarda-chuva protector para a sua existência ou conduta. Nenhum país o pode apoiar, nem publicamente nem em segredo.

– O ISIS já não é financiado por nenhum país ou organização. Autofinancia-se através dos recursos obtidos com o contrabando de petróleo ou peças de arqueologia, lançamento de taxas, roubos a bancos, acesso a informação bancária privilegiada e outra sobre indivíduos ricos que vivam em áreas por si controladas, a que o grupo chama “despojos de guerra” e outras receitas provenientes do Zakat (em variadas formas que não em moeda). Agora que as finanças do ISIS são escrutinadas, o grosso dos seus recursos restringe-se e gira dentro da órbita das áreas que controla.

– O ISIS não está a conseguir treinar os seus combatentes fora da região. Os EUA, Reino Unido, Árabes e estados com fronteira com a Síria e Iraque não estão a fornecer assistência militar directa nem a reabastecer o grupo com mais armamento letal. Tem falta de equipamento militar e de voluntários. É forçado a comprar armas no mercado negro a preços muito elevados.

– O ISIS não está a beneficiar das capacidades dos diferentes estados-maiores conjuntos em termos de informações e planeamento de ataques, orientação das forças em prol dos pontos fortes e fracos do inimigo, assistência na actualização das prioridades e objectivos dos oponentes em caso de contra-ataque, facilidades e assistência médico-sanitária, logística e movimentação dos seus combatentes através das fronteiras dos estados contíguos para ataques directos.

– Não será afectado nem beneficiará de quaisquer vantagens ou desvantagens políticas em futuras negociações em Viena, Geneva ou Nova York.

– O ISIS é muito mais fácil de derrotar porque não tem apoio local e não logrou integrar-se na população da Síria. A principal cadeia de comando do ISIS na Síria é composta por não-sírios, o que criou uma imagem menos positiva junto da população.

A luz do supra referido, o comandante acrescentou:  No presente, porque é que o exército Sírio, Rússia, Irão e Hezbollah gastariam uma munição que fosse contra o ISIS se tal não for estrategicamente remunerador? Se constatamos que os curdos estão a avançar em terras do ISIS na frente norte, com o apoio da aviação norte-americana, concluímos que o seu valor e poder é mais propagandístico do que real quando confrontado com uma força determinada a conquistar e a segurar o terreno. O progresso das forças militares curdas na ocupação de território e ataques ao ISIS no norte da Síria é considerado bem vindo pelo regime, que não se sente provocado. Os curdos estão a avançar em terras árabes e ser-lhe-á benéfico estabelecer um relacionamento harmonioso com as tribos árabes que também estão contra o ISIS. Estão a empenhar as forças cada vez mais e a obrigar o grupo a dispersar o esforço por várias frentes. Ademais, o ISIS não está presente em áreas consideradas vitais e ricas como Idlib, Homs e nos subúrbios onde a população está contra o regime e apoia os rebeldes. O ISIS controla campos petrolíferos no leste e norte da Síria mas estes podem ser retomados. Domina a população de Raqqa e arredores, sujeitando-a à tirania. Está pois destinado a desintegrar-se e a converter-se num grupo bem mais pequeno e clandestino, susceptível de ser derrotado após termos eliminado inimigos mais fortes e ameaças mais sérias. No topo desses inimigos está a al-Qaeda fi Bilad-al-Sham, ou Jabhat al-Nusra.

No que nos diz respeito, queremos estabelecer uma linha de demarcação com o ISIS e abster-nos-emos de levar a cabo grandes operações contra o grupo, reservando as nossas forças para frentes mais estratégicas. Se olharmos para o que aconteceu no recife de Homs, nos casos de Mheen e Haw’wareen, retomámos ambas as cidades apenas porque a presença do ISIS constituía uma ameaça para Homs. Em Kuweires também alargámos o corredor para criar um perímetro de segurança no aeroporto, para que possa ser usado no futuro em operações de larga escala. Concluindo, tudo o que não usamos contra o ISIS poderemos usar contra os rebeldes e a al-Qaeda na Síria.

Sobre o que aconteceu em Mheen, onde o Exército Sírio recuou depois de um contra-ataque do ISIS: Perante uma concentração de forças que avançam para atacar uma cidade, vila ou monte, muitas vezes é preferível evitar o empenhamento da infantaria, retirar as forças e permitir que a força aérea dizime ou elimine o máximo número de atacantes. Adoptámos esta táctica em várias ocasiões e conseguimos depois, com pouco esforço, recuperar o controle do terreno cedido, infligindo pesadas baixas nas forças assaltantes. A precisão dos bombardeamentos russos faz toda a diferença. Por isso, mantemos a posse do terreno apenas se possível e necessário. Procuramos reduzir perdas na infantaria e evitar confrontos desnecessários. A animosidade do ISIS contra os rebeldes sírios é-nos altamente benéfica e tentamos tirar o máximo partido da situação, pelo menos enquanto não houver uma aliança ou um cessar-fogo entre Baghdadi e a al-Qaeda.

Por outro lado, a Al-Qaeda na Síria (ou no Levante, Al-Nusra Front), Ahrar al-Sham e os demais jihadistas salafitas que pretendem estabelecer um Emirado Islâmico, como o “Exército do Islão” e o “Exército da Conquista”, são apoiados militarmente e em treino a partir do estrangeiro. São-lhes disponibilizadas informações e comunicações, instalações logísticas e armamento letal. Os países da região, EUA e seus aliados utilizam estes grupos, directa ou indirectamente, como um cavalo de Tróia, para atingir o regime sírio. Qualquer pedaço de terra que lhes seja reconquistada é considerada um ganho político na mesa de negociações.

Quando o regime sírio colocou objecções aos ataques aéreos americanos, franceses e britânicos sem coordenação prévia com Damasco, a Rússia disse ao Presidente Bashar al-Assad o seguinte: “Deixe-os continuar a desgastar e a conter o ISIS e concentre-se na luta contra a al-Qaeda e aliados desta. O tempo não é o apropriado para objectar ao que eles fazem”. Assim, o enfoque militar foi mais orientado contra a oposição, atingindo áreas estratégicas vitais que representam um perigo real para o Estado da Síria como o acesso ao Mediterrâneo, os recifes de Latakia, Homs, Hama, Aleppo e as fronteiras com a Turquia.

A Rússia declarou oficialmente que a al-Qaeda, Ahrar al-Sham e demais jihadistas salafitas são terroristas, rejeitando a presença destes nas conversações destinadas ao cessar-fogo. É exactamente o que o presidente Assad tem declarado ao longo dos anos de guerra. A Rússia está a solicitar à comunidade internacional que defina quais os grupos a serem considerados não-terroristas. Por estas razões, a guerra em todas as frentes contra a Al-Qaeda e aliados, onde quer que estejam, e o ganho ou a perda de territórios controlados por esses grupos representam um factor importante para o regime sírio e para o Mundo sobre o acordo político a discutir nas negociações. Vamos continuar a envidar os esforços necessários para concentrar todo o poder militar contra estes grupos e, simultaneamente, manter o ISIS debaixo de olho. O auto-declarado grupo “Estado Islâmico” é o segundo na escala de ameaça, pois não irá sobreviver por muito tempo com a presente dimensão e força. É muito mais fácil de derrotar e o perigo que representa não é proporcional ao que proclama. (fim de citação)

Politicamente falando, a guerra do ISIS contra todos tem sido benéfica não apenas para Assad e aliados – em que medida e proporção não interessa agora escalpelizar – mas também para os vários actores do Médio Oriente. Países como a Arábia Saudita, Qatar, Turquia e Jordânia contribuíram, directa ou indirectamente, para o crescimento do ISIS com o objectivo de reduzir o poder do “crescente xiita e alauíta” (Irão, Iraque, Síria, Líbano), para derrubar Assad (cortando a linha de abastecimento militar iraniano ao Hezbollah e impedindo que meios e recursos fossem disponibilizados na Síria a esta organização), permitir que o gás do Qatar fosse canalizado via Síria e Turquia para a Europa em alternativa ao gás iraniano (acordo assinado com o Irão em vez do Qatar em Julho de 2011), para reduzir o grau de ameaça do Exército Sírio para Israel, impor a influência turca à Síria, redesenhar o mapa da Síria e dar poder à maioria sunita do Levante.

Os EUA também beneficiaram com o crescimento do ISIS. Permitiu-lhes o seguinte: que as forças dos Estados Unidos regressassem mais fortes do que nunca à Mesopotâmia; que beneficiassem da venda de armas ao Iraque; que forçassem indirectamente os principais actores do Iraque a executar uma espécie de golpe de estado pacífico contra o candidato favorito do Irão, o ex-PM Nuri al-Maliki; permitiu-lhe lidar com um PM mais amigável, Haider al-Abadi, criando condições para que os curdos do Iraque reclamassem independência do governo central em Bagdade; que a Turquia invadisse o Iraque e se estabelecesse em Ba’shiqa, no norte de Mosul, para participar na libertação da cidade e reivindicar território no norte do país; aumentar o investimento financeiro e militar no Curdistão. O levantamento do ISIS permitiu, indirectamente, que os EUA recuperassem uma imagem militar positiva no Médio Oriente – abalada no Afeganistão e depois na guerra do Iraque – conduzindo um novo tipo de campanha militar sem perdas de vidas. Para além do mais, o ISIS está a exaurir as finanças do Irão, devido ao seu apoio à Síria em petróleo e numerário para pagar salários e manter as várias instituições de pé e em funcionamento. Pela segunda vez desde a revolução de 1979, o Irão está a enviar milhares de combatentes para o estrangeiro, e não apenas dezenas ou centenas de assessores. O Hezbollah do Líbano está completamente empenhado na Síria, onde já sofreu milhares de baixas. É o Irão que financia todos estes custos. Finalmente, os EUA esperam que a Rússia se empenhe mais na Síria, suje as mãos de uma forma ou de outra e que acabe por falhar o objectivo de apoiar Assad e aliados contra os inimigos ISIS, al-Qaeda e demais parceiros islâmicos. No meio de tudo isto, o ISIS, máquina de matar e elefante enfurecido em loja de porcelanas, é também uma “marioneta”.

Tradução de MC

Sobre os erros do ISIS e sobre o futuro da al-Qaeda na Síria ver aqui

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