O mundo mudou e…

Por Carlos Matos Gomes, em Biscates.

Título do DN de 2 de janeiro de 2016: “Arábia Saudita executa líder xiita Nimr al-Nimr, figura da contestação contra o regime saudita.”

Muito poucos leitores farão ideia de quem é Nimr al-Nimr, portanto muito poucos perceberão o significado desta execução. A família Saud, proprietária da Arábia Saudita e histórica agente de ingleses e americanos para o Médio Oriente e a regulação do preço do petróleo cortou mais uma cabeça de um dos seus súbditos. Nada de extraordinário por parte daquela família.

Há, no entanto, muito mais do que a cabeça de um clérigo xiita por detrás desta decisão da família Saud. Há um sinal, mais um, de que o mundo mudou e muito. Que estão em desenvolvimento novas forças e novas relações de força na mais sensível região do globo.

Porque decidiram os Saud cortar a cabeça de um clérigo de uma outra fação do islamismo, mas principalmente de alguém ligado ao Irão, mesmo que só religiosamente? Não foi certamente por afrontas ao Profeta. Nem por ter dito o que todos sabem, que os Saud estão no poder desde os século XVIII por terem estabelecido um acordo com o clérigo sunita radical Moamad Abd Al-Wahhab , um Torquemada das arábias, em que este impunha a sua visão inquisitorial do Islão,  e os Saud governavam. Uma teocracia bicéfala.

A decapitação do clérigo xiita, muito apreciado no Irão, corresponde ao abate do avião russo pelos turcos. Constitui uma tentativa da família Saud de levar o Irão a cometer um qualquer ato de retaliação que obrigasse os Estados Unidos a intervir a seu favor. Mas os Estados Unidos, ao contrário do que esperavam os Saud, condenaram as execuções e os iranianos prometeram vingança, mas divina.

Parece hoje evidente que os Estados Unidos não estão em condições de ameaçar o Irão. Muito pelo contrário, Obama apresentou como uma vitória o acordo de utilização de energia nuclear para fins pacíficos estabelecido com os ayatollahs. Há poucos anos os Estados Unidos faziam ameaças em voz grossa e Israel atacava impunemente instalações nucleares iranianas. Agora até o governo extremista de Netanyahu encolhe as unhas e persegue (pelo menos para o público ver) os seus militantes mais assanhados que ocupam o pouco que resta de terras aos palestinianos.

Os aliados dos Estados Unidos na região vivem momentos difíceis e causam mais problemas do que aqueles que ajudam a resolver e isto num tempo em que há excesso de petróleo no mercado. A Turquia tornou-se um estado traficante. Traficante de petróleo, de migrantes e de terroristas. O melhor que conseguiu com o abate do avião russo foi obrigar a Nato a metê-la debaixo da sua asa protectora, e que a União Europeia lhe abrisse os braços, por ordem dos EUA. O que não abona nada a favor da superioridade moral das duas organizações para criticarem a Rússia.

O cerco da Rússia e o seu isolamento eram o objectivo da operação de redesenho do Médio Oriente e de afirmação do poder mundial incontestado que os Estados Unidos lançaram após o 11 de Setembro de 2001 com as invasões do Iraque e do Afeganistão, as primaveras árabes, as revoluções de veludo e laranja. Agora a Rússia dispõe de bases aéreas e marítimas na Síria que os Estados Unidos e Israel não se atrevem a atacar, recuperou a Crimeia, mantém a Ucrânia desestabilizada e a pesar nos orçamentos ocidentais.

A Rússia pode agora intervir no redesenho do Médio Oriente com base no triângulo Irão, Iraque e Síria. Surgiu como aliada regional do Irão e apoiada mundialmente pela China. Está em condições de permitir que o Irão venha a ser uma nova potência nuclear na região! Assenhoreou-se do espaço aéreo sírio, abrindo sobre ele um guarda-chuva anti-aéreo. Assumiu o comando das operações, obrigou os Estados Unidos a coordenarem as suas acções com o seu estado-maior e com o estado-maior sírio e atacou todas as forças opositoras a Assad como bem entendeu, do ISIS apoiado pelos Estados Unidos e a Arábia Saudita aos rebeldes que lutam contra os curdos por conta da Turquia. Dispõe até de capacidade para controlar a vaga de migrantes que pressionam as fronteiras da Europa, o que lhe permite influenciar a conjuntura política da Europa através da eleição de novos partidos.

Poucos haviam reparado nos sinais vindos da Rússia desde o início da segunda época de Putin no Kremlin. Putin e o seu ministro dos negócios estrangeiros, além de agirem na cena internacional com uma inaudita autonomia, começaram a falar, como falam hoje, num tom acima dos seus interlocutores. Pouco se sabia do estado das forças armadas russas. Os americanos descobriram com estupefacção que dispõem das últimas novidades do estado da arte bélica.

A Rússia comporta-se agora na Síria como os Estados Unidos estavam habituados a fazer na região. Com uma diferença determinante: enviou soldados.

O mundo mudou. O poder mundial volta a ser partilhado, mas não pela União Europeia, que está cada vez mais irrelevante, como peão das nicas, à mercê dos jogos entre americanos, russos e chineses. A curto prazo a grande potência regional do Médio Oriente será o Irão. Quanto à família Saud o bom conselho era o de se preocuparem em manterem as cabeças sobre os ombros em vez de cortarem as dos opositores. Entretanto, para pressionar os Estados Unidos, os Saud cortaram relações diplomáticas com o Irão… estão como Talleyrand dizia dos Bourbons, não aprenderam nada, não perceberam nada…

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