Arábia Saudita e Irão continuam uma guerra com 13 séculos

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Via http://www.npr.org – fresco do pavilhão Chehel Sotun em Isfahan, Irão, mostra a guerra Persa durante o período da dinastia safávida.

Por Leonídio Paulo Ferreira, no DN de 10/Jan/2016.

Dois países muçulmanos que já se enfrentavam em várias guerras por procuração parecem à beira do conflito direto. Uma rivalidade bem atual, mas muito cheia de rancores históricos.

Há uma semana uma multidão incendiou a embaixada saudita em Teerão e levou o reino a cortar relações com o Irão. Foi esse o início da tensão entre os dois países muçulmanos?

Não. A tensão tinha já aumentado na véspera, e muito, com a execução de um clérigo xiita da Arábia Saudita, o xeque Nimr al-Nimr, condenado por traição, depois de três anos preso por liderar os protestos na província oriental contra a família real. Educado no Irão, onde se tornou ayatollah, Al-Nimr questionava a discriminação política, religiosa e económica dos xiitas da Arábia Saudita, que serão 15% da população e se concentram nas zonas mais ricas em petróleo. Acusado de querer derrubar a dinastia Saud, a execução, no mesmo dia de meia centena de presos da Al-Qaeda, gerou indignação entre os xiitas mundo fora. E o líder máximo iraniano, o ayatollah Ali Khamenei, prometeu mesmo “vingança divina”. Com esta sequência de acontecimentos, e todo o passado das relações irano-sauditas, a rutura não surpreende.

Todo o passado? Estamos a falar desde quando?

Bem, as respostas podem ser várias. No mínimo desde 1979, quando a Revolução Islâmica derrubou o xá do Irão. O discurso revolucionário do ayatollah Khomeini, antecessor de Ali Khamenei, assustou os regimes conservadores do Médio Oriente, sobretudo as monarquias árabes. Para reforçar essa desconfiança, notou-se o dedo de Teerão por trás de uma tentativa de golpe no Bahrein em 1981 e de um atentado contra o emir do Koweit em 1983. Não por acaso, sauditas e koweitianos financiaram durante uma década o Iraque de Saddam Hussein na guerra com o gigante persa.

Gigante persa contra monarquias árabes. Há aqui uma questão étnica também, apesar de todos serem muçulmanos?

Sim, o Irão é herdeiro da Pérsia, civilização com milhares de anos. E apesar de ter cedido à conquista árabe no século VII e adotado o islão, nunca renunciou ao passado glorioso. Aliás, os citadinos persas têm fama de olhar com sobranceria para os beduínos que, liderados por Maomé, criaram o islão. Do mesmo modo, os árabes desconfiam desses muçulmanos que, apesar de começarem também a sua era em 622, ano da Hégira (fuga do profeta de Meca para Medina), nunca adotaram o calendário lunar. Por isso, o ano islâmico está em 1437 e o persa em 1394.

Contudo, a oposição entre xiismo e sunismo é mais relevante neste choque entre o Irão e a Arábia?

De certa forma, sim, como prova o modo como surgiu a atual tensão. O Irão só se tornou oficialmente xiita no século XVI, quando a dinastia Safávida decidiu fazer desse ramo do islão a religião do Estado. Mas a força da cultura persa, aliada à grande população, tornou o país o líder do xiismo. Por isso, a influência dos ayatollahs em vários países do Médio Oriente, a ponto de se falar do arco xiita que vai do Líbano ao Irão, passando por Síria e Iraque.

O que os separa?

O sunismo representa 90% dos 1500 milhões de muçulmanos no mundo. O nome deste ramo vem da palavra árabe suna, que quer dizer “caminho feito ou tradição”. É dominante na Indonésia, o mais populoso país islâmico, e também no Paquistão, Turquia, Egito, no Magrebe, e, claro, na península Arábica. Já o xiismo vem da expressão árabe shiat Ali, os “partidários de Ali”, e além do Irão é maioritário no Iraque, no Azerbaijão e no Bahrein, com importantes comunidades na Síria, no Líbano e no Iémen. Há certas diferenças teológicas, com o xiismo a ter um clero organizado e a crer numa linhagem de 12 imãs, que começa em Ali e vai até um que desapareceu no século IX, aguardando a vinda do messias.

Costuma falar-se da Batalha de Kerbala como momento decisivo do cisma islâmico. Que se passou?

Estávamos ainda nas primeiras décadas depois da morte de Maomé e os muçulmanos debatiam-se entre a fidelidade à família do profeta e aos novos senhores da guerra, como Yazid I, fundador da dinastia dos Omíadas, que teve Damasco como capital. Ali, primo de Maomé e casado com Fátima, filha do profeta, chegou a ser califa. Mas, depois do seu assassínio, o filho Hassan não teve força suficiente para se impor e em 680, em Kerbala, no atual Iraque, acabou por ser derrotado pelos Omíadas e decapitado. É esse martírio que ainda hoje é recordado em cerimónias pelas massas xiitas, que se autoinfligem golpes para relembrar o sofrimento do neto de Maomé. Travada há 1300 anos, esta batalha está viva no imaginário do Médio Oriente, em especial entre os crentes do xiismo.

No cristianismo houve conflitos internos, como a Guerra dos 30 anos, mas tudo parece pacificado. No islão há conflito permanente entre xiitas e sunitas?

Bem, convém não esquecer que nos anos 1990 na ex-Jugoslávia os croatas, em nome do catolicismo, combatiam os sérvios, campeões da ortodoxia, o que significa que as guerras dentro das religiões podem sempre ressurgir. Mas no islão tem havido longos períodos de coexistência pacífica entre xiitas e sunitas, que seguem os mesmo cinco pilares do islão (crer em Deus e que Maomé é o seu profeta, fazer as cinco orações diárias, respeitar o jejum do Ramadão, fazer a peregrinação a Meca, dar esmola). Claro que são atrozes os abusos dos talibãs sobre os hazaras, a perseguição do Estado Islâmico aos alauítas da Síria ou os atentados a mesquitas xiitas no Paquistão.

Falando na Síria, e regressando ao século XXI, Irão e Arábia Saudita têm estado em lados opostos, certo?

Sim, desde os primeiros momentos da revolta contra o regime de Bashar al-Assad em 2011 que a Arábia Saudita viu uma oportunidade para afastar um ditador laico, o filho de Hafez al-Assad, esse velho amigo da União Soviética e depois da Rússia, hostil aos monarcas árabes. O Irão, pelo contrário, tem interesse em defender a posição de Assad, cujo pai, durante a Guerra Irão-Iraque, foi o único líder regional que não apoiou Saddam, um sunita à frente de um país de maioria xiita. Além disso, existe solidariedade natural pela proximidade entre o xiismo duodecimano (dos 12 imãs) e o alauísmo, tido como um ramo dissidente do xiismo (e na opinião de muitos muçulmanos nem sequer corrente do islão).

No terreno, como se pode notar esse conflito entre Irão e Arábia Saudita?

É fácil. O Irão financia e arma o exército de Assad e promove o apoio a Damasco tanto do Hezbollah libanês como das milícias xiitas iraquianas. Tudo isto com a colaboração de Moscovo, que também tem usado a sua aviação para proteger o grande aliado regional. Já a Arábia Saudita, optou por apoiar sem grande critério todos os grupos armados em luta contra Assad, fossem a Al-Nusra, próxima da Al-Qaeda, ou até a organização que se transformaria no Estado Islâmico. Depois de perceber que os jihadistas tinham ultrapassado todos os limites e até se virado contra os patrocinadores, os sauditas alinharam com a coligação liderada pela América.

Além da Síria, há outras guerras por procuração entre sauditas e iranianos?

Pelo menos mais uma: no Iémen, onde os sauditas combatem ao lado do governo contra a rebelião Houthi, xiitas que contam com a simpatia iraniana. Ainda na quinta-feira, o Irão acusou a aviação saudita de ter atingido a embaixada em Sanaa.

E, se houvesse uma guerra aberta entre Irão e Arábia Saudita, quem venceria?

Primeiro que tudo, não é provável essa guerra, mesmo que não seja impossível. Seria um conflito terrível, capaz de desestabilizar a região, o mundo islâmico e até o planeta, pois Arábia Saudita e Irão estão entre os grandes produtores petrolíferos. De qualquer forma, a vantagem teórica não é clara para nenhum dos lados: o Irão tem mais população, um exército mais experiente e um fervor étnico-religioso que poderia revelar-se valioso no campo de batalha; mas a Arábia Saudita foi o maior importador de armamento em 2014, possui aviões modernos e sistemas de defesa comprados aos Estados Unidos. A única certeza é que uma guerra em grande escala entre os dois países traria destruição e pobreza aos dois lados.

Vários países, casos do Sudão, do Bahrein e do Jibuti, imitaram a Arábia e cortaram relações com o Irão. É lógica a sua atitude?

Trata-se de países interessados em mostrar lealdade a Riade para tirar o máximo de proveitos futuros. Um deles, o Sudão, até chegou a ter boas relações com Teerão, com cooperação militar e troca de visitas de Estado. De qualquer forma, são países de maioria sunita, que escolheram o lado óbvio na disputa, com exceção do Bahrein, que tem uma maioria de população xiita.

Como se explica o Bahrein?

É simples. O rei é sunita e perante a contestação da população, que reclama mais democracia na ilha, tem recorrido a duas soluções: acusar o Irão de fomentar a revolta e pedir ajuda aos sauditas. Em 2011, quando a população nas ruas contestava o monarca, seguindo os ventos da Primavera Árabe que tinham começado a soprar a partir da Tunísia, os sauditas intervieram contra os manifestantes. O regresso da estabilidade agradou aos Estados Unidos, pois a Quinta Esquadra Americana tem base no Bahrein.

De que lado estão os Estados Unidos neste braço-de-ferro?

A Arábia Saudita é um velho aliado dos Estados Unidos, enquanto o Irão desde 1979 chama à América “Grande Satã”, o que deveria permitir uma resposta óbvia. Mas o melhor que se pode dizer é que o presidente Barack Obama tudo fará para acalmar o choque entre Riade e Teerão, de modo a garantir três prioridades: que os sauditas se mantenham um parceiro, que o Irão continue a respeitar o acordo nuclear do ano passado e que a cooperação para acabar com a guerra na Síria não seja posta em causa.

Rússia e China mostram preferências?

A Rússia tem excelentes relações com o Irão e nos últimos tempos a partilha de interesses na Síria até gerou cooperação militar. Ao mesmo tempo, a desconfiança de Moscovo com a casa real Saud é antiga. Contudo, houve uma tentativa de aproximação recente com Riade, só prejudicada pela intervenção na Síria. Mesmo assim, a Rússia sente-se confortável em oferecer-se para mediar. Quanto à China, compradora de petróleo ao Irão e à Arábia Saudita, evita tomar partido.

E o petróleo, vai subir de preço com esta crise?

A reação inicial dos mercados foi negativa, mas durou pouco. As crises no Médio Oriente deixaram de ter repercussão automática na cotação do crude, basta pensar que, apesar das guerras na Síria, no Iraque, no Iémen e na Líbia, o petróleo está a ser vendido ao preço mais baixo numa década.

E, com esses preços baixos, sauditas e iranianos não deviam ter a economia em vez da guerra como prioridade?

Sim, e é evidente que os governantes de Riade e de Teerão se preocupam com a economia. Os sauditas inundam o mercado de petróleo para não perderem quota de mercado e estrangularem os produtores americanos, valendo-se das suas milionárias reservas de divisas para suportarem as fracas receitas. Quanto ao Irão, depois do sufoco que foram as sanções por causa do nuclear, o regresso aos mercados já é positivo. De qualquer forma, a política externa é tão importante como a economia para a sobrevivência da monarquia saudita e da república islâmica.

Estão ambas ameaçadas?

Os Saud têm vindo a ser contestados pelos jihadistas (nada de novo, Bin Laden, fundador da Al-Qaeda, perdeu a nacionalidade por criticar a aliança com os americanos) e com este braço-de-ferro com o Irão reforçam a sua liderança sobre o mundo sunita, que tenderá a unir fileiras em seu redor. Já os ayatollahs, confrontados com o desejo de abertura da sociedade, confiam no seu projeto de construção de uma grande potência xiita para manter a legitimidade.

Salman da Arábia Saudita tem 80 anos, Ali Khamenei, 76. Ao mesmo tempo, tanto Arábia como Irão são países de jovens. É de esperar que as novas gerações enterrem as velhas disputas?

É verdade que os jovens predominam em ambos os países (metade da população tem menos de 25 anos tanto na Arábia Saudita como no Irão). Mas a rivalidade entre árabes e persas, e sobretudo entre sunitas e xiitas, está tão enraizada que não desaparecerá de um dia para o outro. Aliás, nada garante sequer que não se extreme.

Como sintetizar esta crise?

É um choque entre duas legitimidades: a dos guardiães das cidades santas do islão e a dos guardiães da revolução islâmica. Um choque com 13 séculos de antecedentes.

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