Ex-embaixador Freeman fala da política saudita

quote-i-don-t-think-there-s-a-military-solution-if-we-funnel-in-more-weapons-we-re-just-likely-charles-w-freeman-58-9-0969

Excertos de uma entrevista ao ex-embaixador norte-americano Chas Freeman lida no blog de Jim Lobe, incidindo sobre desenvolvimentos recentes no Médio Oriente: origens do desencantamento saudita com Washington no tempo da administração de George W. Bush e a sua evolução subsequente; intenções de Riade nas execuções em massa de 2 de Janeiro, incluindo a do xeque xiita Nimr Baqir al-Nimr; importância da aproximação Irão-Arábia Saudita; campanha saudita no Iémen; possibilidade de uma maior cooperação internacional contra o Estado Islâmico e outros grupos extremistas salafitas.

* * *

«Os sauditas estão por conta própria. Chegaram a essa posição por meio de um processo de evolução com início no século, com a decisão de George W. Bush na Primavera de 2001 de que os Estados Unidos não poderiam continuar mais a favor da paz israelo-palestiniana se as partes envolvidas não a queriam, e que o processo devia ser abandonado. Ao deixar cair o processo de paz, Bush privou os sauditas e outros amigos árabes dos EUA da capa que tinham usado para justificar aos partidários dos palestinianos a sua relação com Washington. Por outras palavras, os sauditas haviam afirmado previamente que “os americanos podem estar a fazer todo o tipo de coisas más com os israelitas, mas são os únicos que nos podem ajudar a chegar a uma resolução justa neste conflito“. Este tinha sido o argumento, mas Bush basicamente tirou-lhes o tapete.

Este cenário coincide com a entrada do ex-primeiro-ministro israelita Sharon em Jenin (durante a segunda intifada), apesar dos esforços de Bush para o dissuadir. O facto mostrou aos sauditas e a outros que os Estados Unidos não poderiam conter nem conteriam Israel e, portanto, não poderiam ser doravante considerados o protector saudita, desvalorizando o estatuto dos EUA como garante de segurança.

Na Primavera de 2001 o então príncipe herdeiro Abdullah recusou um convite para ir à Casa Branca, confidenciando que não se podia dar ao luxo de ser visto na presença de Bush. Alguns meses depois, em Agosto, enviou uma carta a Bush dizendo que a Arábia Saudita e os Estados Unidos tinham chegado a uma encruzilhada e que uma separação era necessária ou talvez até mesmo um divórcio. Washington alarmou-se ao ponto de obrigar Bush a libertar Colin Powell das suas grilhetas e dar-lhe permissão para retomar a questão israelo-palestiniana.

Com o 11 de Setembro surgiu nova divergência entre americanos e sauditas. A reacção dos EUA foi sobranceira/farisaica do tipo “eles (os árabes) odeiam-nos por causa dos nossos valores“, não por causa de nossas acções. A reacção saudita veio num discurso de Abdullah em Muscat no qual disse que assumiam a responsabilidade pelo que correu mal e que precisavam de corrigir os seus problemas. Temos então introspecção e contrição no lado saudita e sobranceria assertiva e crescente islamofobia no lado americano.

Tanto as tendências como as disparidades nas percepções permanecem desde então. Na Arábia Saudita a contrição transformou-se em ressentimento contra o que vêem como a traição americana a uma amizade até aí professada, conjugada com a calúnia dos muçulmanos que culminou nas declarações recentes de Donald Trump.

A invasão do Iraque é percepcionada como a transformação de uma missão punitiva no Afeganistão em campanha de pacificação, destinada aparentemente a evitar que os militantes muçulmanos tenham um papel na governação do seu país, ao mesmo tempo que constatam o entusiasmo norte-americano pelos bombardeamentos israelitas em Gaza ou no Líbano.

A percepção saudita de tudo isto assenta na constatação do surgimento de uma campanha americana contra o Islão e na investidura constante do Irão como potência hegemónica regional: a instalação de um regime pró-iraniano em Bagdade, a falta de qualquer resposta às propostas de Assad para reduzir sua dependência do Irão, o apoio às acções de Israel no Líbano que conduziram o Hezbollah ao estatuto de principal força política no país, a ambivalência dos EUA em relação à agitação no Bahrein e toda uma série de outros eventos. O pior deles – na perspectiva saudita – foi a falta de vontade da América para ficar ao lado de Hosni Mubarak, que havia sido pupilo saudita. Isto convenceu-os de que os Estados Unidos não eram apenas pouco fiáveis como amigo, mas que eram também traiçoeiros.

Assim sendo, a reacção saudita à política americana no século XX foi, em primeiro lugar, um esforço para encontrar uma alternativa protectora. Mas descobriram que não existe tal alternativa. Tentaram então diluir a sua percepção de excessiva dependência dos EUA através do desenvolvimento de relações com outras potências como a China, Índia, Rússia, Brasil e Alemanha, descobrindo as limitações do que era possível nesta matéria. Por fim, mais recentemente, decidiram aparentemente que não têm outra escolha que não seja confiarem em si mesmos e agirem por conta própria.

Chegámos então aos eventos mais recentes. Julgo que ocorreram por vários motivos. Em primeiro lugar, decidiram dar prioridade ao assunto do Daesh. Para tal, anunciaram a formação de uma chamada “Aliança Islâmica“, uma coligação destinada a fazer algo, embora ainda nada tenha realmente feito. É um esforço para formar uma coligação que organize o mundo sunita contra o Daesh e também, francamente, contra o Irão.

Os Al-Saud também sentiam necessidade de enviar uma mensagem forte à própria população, especialmente ao elemento salafita da população (que receiam possa simpatizar com o Daesh). Queriam levar o “temor a Deus” aos seus próprios extremistas, executando um grande número deles. Ao mesmo tempo, procuravam demonstrar ao eleitorado salafita mais moderado que não se estavam a afastar do salafismo, que se tratava de exterminar terroristas, incluindo quatro xiitas entre os 47 que foram executados. Um deles foi o xeque Nimr Al-Nimr, um clérigo iraniano com uma historial de discurso violento, senão mesmo acção violenta contra a família governante. (Os sauditas afirmam que tinha alguma relação com as operações do Hezbollah na província oriental). Tratou-se de um incremento na guerra contra o terror e mais um passo da encenação de independência em relação aos EUA. Não foi um sinal para o Irão ou destinado a provocar uma reacção iraniana. Os sauditas, como todo o mundo, fazem a sua política principalmente em função da agenda doméstica e não da opinião estrangeira. Assim, quando os iranianos reagiram com o que foi infelizmente um caminho já conhecido – invadindo e queimando instalações diplomáticas e consulares – os sauditas receberam o bónus, que foi a demonstração da barbárie iraniana, o que funcionou muito bem internamente e, em larga medida, internacionalmente. Quando um país anfitrião não protege diplomatas, a reacção normal é o corte de relações. Tenho certeza de que nenhum das partes tinha planeado este resultado, mas é perfeitamente compreensível, como aqui nos Estados Unidos podemos atestar. Afinal de contas, nós não tivemos relações com o Irão durante décadas precisamente por essa razão.

Vejo muita especulação entre os iluminados, especialmente entre iluminados alinhados com o Irão, no sentido de que, de alguma forma, os sauditas executaram o xeque Nimr para provocar o Irão. Apesar de o Irão ter sido realmente provocado, julgo que a reacção dos iranianos foi um benefício inesperado para os sauditas, mas que essa intenção não existiu. Este conjunto de desenvolvimentos, é claro, dificulta enormemente qualquer aproximação americana ao Irão. Sem dúvida que muitos sauditas acham que isso é uma coisa boa. Mas a paz na região requer algum grau de aproximação entre Arábia Saudita e Irão. E os Estados Unidos precisam de ter algum tipo de relacionamento com o Irão caso pretendam desempenhar um papel eficaz numa região onde o Irão é um grande actor, como no Iraque, na Síria, no Líbano, no Bahrein, e agora no Iémen. Assim, alguns sauditas estão provavelmente muito satisfeitos com as dificuldades adicionais que agora dificultam uma abertura dos Estados Unidos ao Irão, que eles preferem seja inexistente. Não partilho o regozijo saudita neste particular. Não acho que tenham feito um favor a eles próprios ou a nós com este resultado.
Resumindo: as relações americano-sauditas evoluíram de uma forte parceria para uma cautelosa cooperação mais distante. Estes últimos acontecimentos são apenas a confirmação dessa tendência.

Sobre o Iémen. Desde o início, o bombardeio da Arábia ao Iémen não se assemelhava a mais do que as acções israelitas em Gaza; ou seja, era um exercício de intimidação militar sem objectivo político viável ligado a ele. Não se pode instalar ou restaurar um governo a partir do ar e, portanto, apesar de os ataques aéreos poderem intimidar os iemenitas, não vão atingir o objectivo que a Arábia anunciou. Há muita destruição e nenhum ganho real para a Arábia Saudita na guerra do Iémen. Julgo que os Estados Unidos têm apoiado a guerra Arábia por dois motivos: 1) não desejam romper com os sauditas, e, portanto, apoiar é a melhor parte do preço; e 2) os fabricantes de armamento americanos estão a ganhar dinheiro com a guerra. E, claro, no fundo, há o desejo de não ter os sauditas a quebrar a sua aquiescência ao acordo nuclear com o Irão. Mas o problema dos sauditas com o acordo tem sido o lidar com o reconhecimento implícito do prestígio e poder do Irão, e não com os seus aspectos nucleares. E a sua apreensão tem uma base sólida. Além de dificultarem a reaproximação EUA-Irão, os últimos acontecimentos complicaram os esforços diplomáticos dos Estados Unidos para a paz na Síria. Estes esforços são tardios e ainda bastante incipiente. Surgiram principalmente porque os russos tornaram o processo de paz necessário. Os sauditas dizem que vão comparecer na próxima reunião (em Viena, destinada à paz na Síria) com os iranianos. Isso é bom. É também, em certo sentido, uma ilustração da nova era em que nos encontramos, em que a declaração “Ou está connosco ou contra nós” é um absurdo, e os países podem ser uns contra os outros para muitos fins, até mesmo quando trabalham juntos em muitos outros. Esse é o mundo em que vivemos agora e em que vamos ter de aprender a viver.

Quanto ao artigo de David Ignatius – “os sauditas estarão a agir por medo ou ansiedade” – tenho um problema com essa tese. Julgo, em vez disso, que estão demostrando frustração pela sua incapacidade em obter o apoio de outros, especialmente dos Estados Unidos, para os seus principais objectivos face aos sérios desafios que enfrentam. Internamente não estão com medo, mas determinados a cortar rente quaisquer sinais de dissidência que possam conduzir à instabilidade, em especial dos xiitas. Mas também estão determinados a eliminar qualquer simpatia pelo Daesh na maioria salafita da sociedade. Ao lidar com o Daesh, estão tentando aplicar a abordagem das três vertentes que usaram internamente para o mesmo problema no exterior. Essa abordagem inclui, primeiro, a refutação da teologia, rebatendo basicamente a ideia de que o terrorismo é compatível com qualquer versão legítima do Islão; segundo, a reforma de potenciais meliantes, exercendo pressão moral e social sobre eles e convencendo-os que seria errado tornarem-se terroristas; terceiro, a execução de qualquer pessoa que cometa um acto de terrorismo, tanto para eliminar a ameaça que representam como para dissuadir outros de seguirem o exemplo. Parece que o objectivo da “Aliança Islâmica” é alargar esta abordagem a todo o mundo muçulmano. E isso é uma oportunidade para os Estados Unidos e outros, no meu entender.

Temos desrespeitado o direito internacional durante mais de uma década. No entanto, esta é uma questão que une a comunidade internacional e o Conselho de Segurança das Nações Unidas, cujos membros compartilham o mesmo desejo de conter e eventualmente eliminar o Daesh e os da sua laia. A Aliança Islâmica é uma oportunidade para a ONU autorizar e capacitar uma divisão de esforços contra o Daesh, em que potências não-muçulmanas forneceriam, se necessário, informação (intelligence), logística, armamento, munições e apoio à formação, mas suportando os muçulmanos os ónus da refutação ideológica, reforma, aplicação da lei e as botas no terreno. Se formos para a ONU as vantagens seriam as seguintes: recuperamos a lei internacional como base da acção internacional contra o terrorismo, o que uniria a comunidade internacional, incluindo o elemento islâmico; e permitiria redigir e fazer aprovar uma convenção internacional contra o terrorismo, criminalizando-a à semelhança da pirataria. (É surpreendente ainda não existir uma definição de terrorismo acordada internacionalmente). Poderíamos tentar produzir legislação modelo para ser adoptada a nível nacional, o que harmonizaria a legislação anti-terrorista e aumentaria a cooperação internacional. Há aqui uma oportunidade para alguém com visão, excluindo os que agora pretendem concorrer a eleições. Para os sauditas o inimigo número um ainda é o Irão, e Assad é visto como peão do Irão. Mas, ao mesmo tempo, os sauditas têm vindo a intensificar esforços para combater o Daesh. Devemos saudar isso. Nestas circunstâncias, penso que seria um erro castigar os sauditas, como pedem agora alguns comentadores. Se os elevarmos à categoria de inimigo o que ganharemos? Acha que vai motiva-los a cooperar afogando-os em críticas? Muito pelo contrário, seria mais um caso de política externa americana por birra, desta vez dirigida aos sauditas. Não acho que isso seja sensato.

Sobre os esforços dos EUA para reduzir as tensões saudi-iranianas, não acho que os Estados Unidos estejam em posição de influenciar positivamente. Não temos uma relação com o Irão. Não temos um relacionamento cordial com os sauditas. Não estamos em posição de intermediar em algo que não seja a discórdia. A perspectiva de uma aproximação entre eles será provavelmente potenciada se nós recuarmos.
Temos um hábito de criar risco moral na região ao permitir comportamentos autodestrutivos em países que agem à revelia dos seus próprios interesses ou, em última análise, do nosso interesse. Se não nos oferecermos para fazer tudo a todos ou para fornecer apoio incondicional aos principais actores regionais – seja a Arábia Saudita ou Israel ou o Egipto – aumentam as probabilidades de que eles se sintam obrigados a fazer as escolhas difíceis que melhor satisfaçam os seus interesses. Há muitas decisões politicamente difíceis que eles devem tomar. E não vão tomá-las se lhes dermos uma desculpa para o não fazerem. O risco moral surge quando se assumem riscos de fracasso para outras pessoas. Ao agir assim incentivamo-los a ignorar os riscos e a tomar decisões que vão contra seus reais interesses. Isso é prejudicial para eles e para nós. Precisamos de mudar o nosso jogo de política externa para encorajar outros a agir no seu próprio interesse.»

MC

Anúncios
Esta entrada foi publicada em Sem categoria com as etiquetas , , , , , , , , , , , , , , . ligação permanente.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s