Pior na Turquia, melhor na Síria

As autoridades da Turquia receberam hoje mais daquilo que semearam na Síria, ao optarem por apoiar terroristas. Dez pessoas, na maior parte turistas estrangeiros, perderam a vida num ataque suicida na praça Sultanahmet, numa área turística de Istambul. O governo turco atribuiu a responsabilidade do atentado a um saudita de 28 anos, depois de se ter receado que fosse uma acção do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) ou de outro grupo radical da esquerda. Ainda não se sabe se o bombista pertencia ao Estado Islâmico.

Para além das vítimas, os alvos são a economia turca e o emprego no sector do turismo. Istambul é uma das cidades mais visitadas na Europa, panorama que vai mudar, especialmente depois de Moscovo ter avisado os russos sobre os riscos que correm nas visitas à Turquia. É provável que a Alemanha e outros governos façam avisos semelhantes aos seus nacionais.

A Turquia tem apoiado os terroristas que se opõem aos governos legítimos do Iraque e da Síria. O Estado Islâmico conduzia uma sofisticada operação de imigração através da fronteira turco-síria, com um vai-vem de indivíduos a esgueirarem-se pela área de Tel Abyad até que as forças curdas conquistaram a cidade no passado Junho. Só então as autoridades turcas fecharam o posto fronteiriço, e fechado se diz que permanece. Há porém outras rotas por onde os jihadistas se podem infiltrar na Síria e desta de volta para a Turquia. As importações necessárias ao Estado Islâmico entram quase todas pela Turquia e por esta se faz também o contrabando de petróleo. Se os turcos não alterarem a sua política em relação ao E.I. e a outros grupos jihadistas rebeldes não se queixem depois do caos que atraem para dentro do país. Contudo, ataques como o de hoje têm permitido a Erdogan e ao governo do AKP justificar a presente agenda securitária, com mais detenções, restrição de direitos cívicos, perseguições, acusações a opositores e censura à imprensa.

No ano passado os turcos deram uma ajuda a uma aliança da al-Nusra com outros grupos rebeldes na tomada da província de Idlib. O ataque em massa e o apoio da Turquia foi uma das razões que levou Vladimir Putin a intervir na guerra ao lado do governo sírio e dos “proxies” do Irão. Desde então assistimos a uma inversão dos ganhos na guerra, com a coligação de Assad a somar pontos em várias frentes.

Porém, a Turquia não é o único país “ocidental” que apoia activamente os jihadistas. Numa declaração de ontem à Foreign Policy, um elemento da Força Tarefa de Emergência Síria (Syrian Emergency Task Force) referiu que aeronaves russas bombardearam um dos escritórios desta no centro da província de Idlib e que o ataque “destruiu completamente” instalações e equipamentos. O pessoal – que organiza workshops sobre a sociedade civil, distribui ajuda humanitária e regista as “atrocidades de Assad” – não estava presente no momento do ataque aéreo e, como tal, escapou ileso. Mas não se pode deixar de questionar como é que uma organização norte-americana financiada pelo Departamento de Estado opera numa zona de guerra (Idlib) controlada pelos terroristas da al-Qaeda, o que só deixa perplexos os menos informados sobre o Médio Oriente.

Como muitos analistas já disseram e escreveram, quando a Federação Russa iniciou a campanha militar de apoio ao presidente Assad e as forças deste se lançaram na ofensiva, os terroristas receberam significativo stock de armas anti-tanque, apesar da quantidade do armamento fornecido ter agora vindo a decrescer. Os bombardeamentos russos quebraram a cadeia logística de vários grupos e exauriram os stocks armazenados em depósitos e quartéis-generais, o que é demonstrativo do sucesso de um plano que ainda só vai no quarto mês de operações.

Em Latakia, no noroeste do país, o Exército Sírio Árabe (ESA) conquistou a cidade-estância de Salma, que tinha sido um centro de actividades terroristas. Ontem, o subúrbio oeste de Alepo foi retomado pelo ESA. A leste desta cidade, a segunda do país, o ESA avança em direcção a Al Bab, situada num dos principais eixos de acesso do Estado Islâmico à Turquia. Próximo de Rastan, na província de Homs, o ESA cruzou o rio Orontes e tomou Jarjisah. Mais a sul, o exército sírio progride em direcção à fronteira com a Jordânia. A aviação russa apoia também o avanço dos curdos da Frente Democrática Síria (designação inventada pelos americanos), que combatem o Estado Islâmico, avançando agora para Manjib numa tentativa de entalar o E.I. e outros rebeldes numa manobra de pinça que lhes interdite a fronteira turca. A somar a tudo isto, a linha vermelha estabelecida por Erdogan – “as forças curdas não poderiam cruzar o Eufrates para oeste sob pena de serem atacadas” – foi deixada cair, pois de momento, devido à interdição do espaço aéreo pelos mísseis russos, Erdogan tem as opções muito limitadas. Segundo o Estado Maior-General de Putin, desde o início da campanha aérea a coligação de Assad libertou mais de 150 cidades e vilas. Mais de 22 caíram após 1 de Janeiro. Em suma, o plano de operações desta coligação restringiu significativamente a capacidade operacional das forças que se opõem ao regime.

Há escassas semanas, Bagdahdi, o califa do Estado Islâmico, tinha apelado a uma mobilização geral de muçulmanos que invertesse a retracção do dispositivo militar e as perdas entretanto sofridas por esta organização na Síria e no Iraque. Há dois dias os principais líderes religiosos da al-Nusra seguiram-lhe os passos. Idem aspas para os terroristas chechenos de Latakia do Emir Shishani, que pedem auxílio. Não é caso para menos. O plano de operações russo inverteu o curso da guerra e as frentes jihadistas estão a ceder e a aproximar-se do ponto de rotura, apesar do que dizem ou disseram os propagandistas do Ocidente.

Mas enquanto perdem batalha após batalha, os terroristas, rebeldes e seus apoiantes ocidentais e regionais não descuram as operações de propaganda. Como ontem aqui se escreveu sobre Mandaya, ocupada pela al-Nusra e cercada pelo ESA, foi feito um esforço significativo para virar a opinião pública contra o governo, afirmando-se falsamente que este cercara a povoação e procurava dizimar o seus habitantes pela fome. A campanha não resultou, apesar de até uma cadeia de televisão como a BBC ter embarcado no embuste.

MC

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