Sobre os muçulmanos – multiculturalismo e separatismo na Europa

A entrada em massa de migrantes na União Europeia está na ordem do dia, com incidentes em vários estados-membros. Recupero um excerto de George Friedman, lido em “Focos de Tensão – Os choques geopolíticos que ameaçam o futuro da Europa“, ed. D. Quixote, apesar de termos já a percepção de que é assim mesmo, mais coisa menos coisa.

“A reconstrução [da Europa] obrigou a um reencontro com o norte de África e com o mundo islâmico em geral. À medida que as economias da Europa cresciam, precisavam de mão de obra adicional. A fonte mais próxima dessa mão de obra era o mundo muçulmano. Milhões de muçulmanos vieram para a Europa para ganhar dinheiro. Esta migração não transformou a Europa, mas mudou-a. Actualmente, por exemplo, 10% da população belga é muçulmana. A população britânica tem pouco menos de 5% de muçulmanos. A alemã, 5%. A percentagem é ainda mais surpreendente nas cidades. Em Paris, entre 10 e 15% dos habitantes são muçulmanos e em Bruxelas, um terço.

Na costa norte do Mediterrâneo sempre existiram muçulmanos. A Turquia e a Bósnia são exemplos óbvios, e a Bulgária tem uma minoria muçulmana considerável. Há três coisas que mudaram com esta migração. A primeira, o número de migrantes. A segunda, a abrangência da sua fixação. Cidades como Marselha ou Barcelona há muito que têm uma comunidade muçulmana. Mas o que é diferente é que, desta vez, os muçulmanos (e nem todos os muçulmanos eram, de forma alguma, oriundos do Mediterrâneo) migraram para Londres, Bruxelas, Frankfurt e outras cidades do norte da Europa, que nunca tinham assistido a esta migração. A terceira, a velocidade com que a migração ocorreu. Começou na década de 1960.

Convém salientar que a migração aconteceu em sociedades que não eram muito boas a absorver imigrantes em larga escala. A incapacidade de alguns países europeus gerirem grandes massas de imigrantes remonta à natureza dos seus regimes. (…) a génese dos Estados-nações num sentido de destino partilhado, resultante de uma história, língua e cultura comuns. Se nascemos húngaros ou espanhóis podemos adquirir cidadania, mas a naturalização, ou seja, sermos húngaros ou espanhóis em sentido absoluto através de um processo legal ia contra o conceito de nação enquanto sangue partilhado ou, no mínimo, nascimento comum.

Os europeus tentaram resolver este problema através do multiculturalismo. Sendo incapaz de transformar um novo cidadão num alemão ou num sueco, e estando fortemente relutante em regressar ao racismo, a Europa experimentou aceitar imigrantes como cidadãos, mas reconhecendo que não podiam partilhar a cultura. Segundo a doutrina do multiculturalismo, não só podiam permanecer diferentes como essa diferença era oficialmente equiparada à cultura nativa. Claro que a diferença entre a declaração de que algo é verdade e a sua prática pela maioria é uma questão difícil e complexa.

O multiculturalismo e toda a iniciativa imigratória enfrentam outro desafio. A Europa estava sobrelotada e, ao contrário dos Estados Unidos, não tinha espaço para absorver milhões de imigrantes, muito menos como permanentes. Mesmo com uma população em lento declínio, o aumento da população, particularmente nos países mais prósperos, foi difícil de gerir. A doutrina do multiculturalismo incentivou naturalmente o separatismo. Cultura implica desejo de viver com o povo. Dado o estatuto económico dos imigrantes em todo o mundo, as inevitáveis exclusões, talvez não intencionais e incorporadas no multiculturalismo, e o desejo de gostar de viver com iguais, os muçulmanos encontraram-se a viver em condições extremamente precárias e em espaços sobrelotados. Em torno de Paris, há arranha-céus de apartamentos que obrigam e separam os muçulmanos dos franceses, que vivem noutros lugares.

Isto não é muito diferente do que acontece nos Estados Unidos, excepto num aspecto: nos Estados Unidos, há liberdade para manter a distinção cultural, mas a não a adopção das normas americanas da língua e da cultura são motivo de exclusão. Aceitar essas normas permite entrar na vida americana pagando o preço de desistir da cultura nativa, com excepção de uma refeição especial nos dias feriados. É um preço elevado, mas a possibilidade de alguém se tornar americano não lhe é negada. Na Europa é mais complexo. A cultura é mais rica e mais complexa – e mais antiga – do que nos Estados Unidos. Ser francês é mais difícil. (…)

O antissemistismo nazi foi o reductio ad absurdum da Europa – o nascimento tornado sangue e o sangue, doença. Contudo, a Europa nunca recebeu o forasteiro como um dos seus. Os muçulmanos estão agora a sentir o que os judeus sentiram. A Europa consegue lidar com um número reduzido de estrangeiros. Não conseguiu lidar com os Ostjuden, os judeus do Leste que convergiram em massa para a Europa do século XIX. Nem consegue lidar com os muçulmanos que têm chegado mais recentemente. Não é um problema que afecte os europeus mais abastados, que se podem isolar das classes mais baixas da Europa. É um problema da classe média baixa e dos mais carenciados, que não podem ignorar a presença dos estrangeiros e sentem a pressão deles sobre as suas vidas. É aqui que a tensão surge. O multiculturalismo permite a institucionalização da distinção entre imigrantes e nativos. Mas as distinções radicais que daí resultam são sentidas pelos europeus mais inseguros, enquanto a magnanimidade da identidade e da diversidade foi concedida pelos que têm menos probabilidade de conviver de perto com estas distinções. (…)

A Europa moderna tem-se tornado progressivamente laica. A participação nas cerimónias religiosas das igrejas de todos os credos tem diminuído na maioria dos países, e as sondagens revelam que os europeus estão a ficar indiferentes à religião ou mesmo hostis. Os judeus seguiram esse laicismo antes da Segunda Guerra Mundial. Esse, pelo menos, não foi um ponto discordante. Os muçulmanos, por outro lado, são religiosos. Talvez este não seja universalmente o caso, mas é suficiente para os colocar em contradição com o laicismo da Europa. A França, por exemplo, proibiu o uso do véu em público pelas mulheres muçulmanas. A proibição foi justificada como sendo uma medida de segurança, embora tenha soado a tentativa de controlar não tanto os muçulmanos, mas a apresentação pública da sua religião.

Os europeus tiveram mais do que um pequeno problema com o movimento de muçulmanos para norte através do Mediterrâneo, assim como com os que chegam à Grã-Bretanha a partir do Paquistão, ou aos Países Baixos a partir da Indonésia. Residentes das antigas colónias europeias obtiveram o direito de migrar logo após a independência, o que significou que os países com antigos impérios tiveram migrações únicas além da migração económica encorajada pela Alemanha.

No seu conjunto, as sociedades europeias sofreram uma mudança substancial na sua composição. Diferenças culturais e religiosas, abertamente manifestadas através do vestuário e dos comportamentos, destabilizaram alguns países ou cidades de forma desproporcionada. Os imigrantes foram necessários durante o período de expansão do pós-guerra. Mas não conseguiram integrar-se na sociedade. Primeiro, porque as sociedades europeias não estavam concebidas para suportar uma cidadania opcional em massa. Segundo, muitos dos muçulmanos pretendiam permanecer separados para preservar a sua cultura. Encontravam-se na Europa para ganhar a vida, não para mudar o seu modo de vida. Precisavam de trabalhar, não de construir sociedades europeias.

Duas questões exacerbam a situação. A primeira foi o terrorismo. (…) Em alguns países, foi crescendo a noção de que o acolhimento de muçulmanos exigia uma alteração do compromisso cultural do anfitrião com a liberdade de expressão. O segundo factor foi a crise financeira global. Antes de 2008, a Europa precisava de mão de obra e estava preparada para tolerar a sua enorme excentricidade. Uma baixa taxa de desemprego significava que as pessoas podiam estar culturalmente ameaçadas pelos imigrantes, mas não em risco económico. Com a crise financeira, e sobretudo quando a taxa de desemprego disparou, os muçulmanos passaram a ser vistos como uma ameaça cultural e também como uma ameaça económica. Esta situação fez disparar os sentimentos antimuçulmanos e níveis muito elevados em países onde a presença muçulmana era mais concentrada, ou em certas regiões, mesmo que não fosse grande a nível nacional, e, o que é mais importante, em países que estavam sob maior pressão económica. Nem sempre se tornou uma questão racial, mas foi certamente um foco de fricção.

Se os sentimentos antimuçulmanos estavam presentes por toda a Europa, os sentimentos antieuropeus também haviam crescido nas comunidades muçulmanas. Em Paris, por exemplo, verificavam-se tumultos de muçulmanos que protestavam contra a forma como eram tratados. A questão era essencialmente social: as tensões criadas noa Estados europeus por estrangeiros. Mas foi no Sul que o sentimento anti-imigrantes e antimuçulmanos se fundiria com a crise social e conduziria a Europa para uma crise mais profunda. (…)”

MC

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