A execução de al-Nimr e a jogada saudita

05tue1web-master675Foto de Vahid Salemi/Associated Press (no The New York Times)

As relações entre o reino da Arábia Saudita  e a República Islâmica do Irão degradaram-se ainda mais depois de manifestantes e gangs terem invadido e lançado fogo à embaixada saudita em Teerão, nos tumultos subsequentes à execução do xeque xiita Nimr al-Nimr. Apesar de as acusações contra al-Nimr não serem provavelmente isentas e mesmo que a sua execução possa ser entendida como uma provocação, as autoridades iranianas deveriam ter montado segurança eficaz no perímetro do edifício da embaixada, de forma a evitar a escalada do conflito xiita-sunita que poderá tornar mais difícil a resolução dos problemas no Médio Oriente, apesar de declarações proferidas em sentido contrário. O episódio foi imediatamente aproveitado por aqueles que pretendem impedir a remoção progressiva das sanções internacionais impostas ao Irão e querem evitar a implementação do acordo nuclear, prevista para breve. A fuga noticiosa sobre a vigilância das autoridades norte-americanas às pressões de Israel sobre senadores e congressistas que pretendiam subverter a política da administração Obama para o Irão deve ser vista sob este prisma.

Após o episódio, os Sauditas acusaram o Irão de apoiar o terrorismo. Este desenvolvimento é ouro sobre azul para aqueles que no Congresso pretendiam usar o dossier dos mísseis, que não fazia parte do acordo nuclear EUA-Irão, como obstáculo a que o presidente Obama avançasse com a implementação deste. Já se afirmou que estes temas – conivência do Irão com o terrorismo e os mísseis – serão utilizados doravante contra o acordo nuclear.

Questão diferente é esta: será que a execução de al-Nimr foi uma jogada inteligente, tendo em conta que foram também executados outros 46 condenados, sentenciados por terrorismo e revolta contra o governo?

A monarquia saudita meteu-se no atoleiro da Guerra do Iémen. Após 9 meses de contínuos bombardeamentos para reinstalar em Sanaa um governo fantoche não conseguiu atingir este objectivo político. As forças iémenitas atacam povoações sauditas, sucessiva e repetidamente. Na Síria e no Iraque, apostou na mudança dos regimes, tendo patrocinado e apoioado jihadistas salafitas, mas devido a Teerão e à intervenção russa ambos se mantêm. A queda do preço do petróleo obrigará, segundo o FMI, a que a Casa de Saud lance impostos sobre a população, o que será uma decisão impopular. A execução dos 46 e de al-Nimr poderá ser encarada como manobra de diversão, ou melhor, como uma tentativa de relegitimação política do governo. A maior parte dos executados tinha ligações à al-Qaeda e, na década passada, tinham estado envolvidos em terrorismo e acções destinadas a derrubar a monarquia, recorrendo à violência. Com os recentes apelos do Estado Islâmico e da al-Qaeda à comunidade jihadista para que fossem feitos reféns que pudessem ser trocados por prisioneiros do regime, este não podia descartar a possibilidade de novas acções. Dos 47 executados apenas 4 eram xiitas. Um deles era o proeminente xeque Nimr Baqr al-Nimr, da provincia de Qatif, no leste do país.

Al-Nimr tinha apelado à revolta dos jovens da Arábia Saudita e do Bahrein contra o governo e que derrubassem todos os tiranos, não apenas na Arábia Saudita e Bahrein, mas também na Síria. Não era considerado um lacaio do Irão mas preconizava uma república islâmica como forma de governo. Declarava-se contra a violência mas várias das demonstrações que convocou terminaram com vítimas entre polícias e manifestantes.

Kenneth Roth, da Human Rights Watch, escreveu que al-Nimr preconizava um estado democrático. Mas a Wikileaks revelou o relato de um encontro em 2008 entre um diplomata americano e o xeque, que nos dá outra perspectiva, a de um sistema dirigido por juízes religiosos ou clérigos, o que, segundo padrões comuns, não pode ser considerado uma democracia, apesar de al-Nimr alinhar sempre com o povo e estar permanentemente contra o governo.

Extracto da entrevista:

Al-Nimr described his and al-Mudarrasi’s attitude towards Islamic governance as being something between “wilayet al-faqih,” in which a country is led by a single religious leader, and “shura al-fuqaha,” in which a council of religious leaders should lead the state. Al-Nimr, who conducted religious studies for approximately ten years in Tehran and “a few” years in Syria, stated that all governance should be done through consultation, but the amount of official power vested in the hands of a single official should be determined based on the relative quality of the religious leaders and the political situation at the time.

O governo perdeu a paciência quando em Junho de 2012 o xeque se congratulou com a morte do ministro do Interior, o príncipe Nayef bin Abdul-Aziz Al Saud. Foi preso e condenado à morte.

Existe agora a dúvida sobre como a sua execução se vai repercutir no conflito sectário sunita-xiita, tendo-se adiantado que poderá impedir um acordo regional alargado na Síria. E também no Iémen.

A legitimidade política da Casa de Saud não é inquestionável e tem sido objecto de críticas dentro e fora do mundo muçulmano, tanto de moderados como de extremistas que pretendem derrubar a monarquia. Não obstante, a “legitimidade” do governo dependerá cada vez mais da existência de uma capacidade financeira alargada (designadamente para despesa social) e de ser visto como o defensor da fé wahabita. Fomentar a rivalidade sectária, provocando uma reacção no universo xiita contra a “Ummah” sunita, ajudará a congregar os mulás e o povo em redor dos “defensores da fé” em Riad. A legitimação da autoridade religiosa (e autoridade política por se tratar de um islão integrista), será, porventura, como sempre foi, uma das pedra de toque neste processo. A execução do xeque xiita serve também de cobertura para a execução dos extremistas da al-Qaeda, que tinham e têm muitos simpatizantes no reino. Executar estes e poupar al-Nimr geraria seguramente protestos entre a população sunita mais radicalizada (o que não evitou que elementos da al-Qaeda fora do país jurassem vingança).

Os iranianos e as organizações xiitas caíram eventualmente na ratoreira, tanto na capital do Irão como nas províncias do leste da Arábia Saudita. A reacção xiita – invasão e fogo posto na embaixada e tumultos violentos com a polícia em vários pontos do país -, foi a que o governo saudita esperava e precisava para se “relegitimar” e devia ter sido evitada. O agravamento do conflito sectário será também aproveitado pelos conservadores em Teerão para criticar a abertura da república islâmica ao exterior.

MC

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