“Como derrotar o Estado Islâmico”

Texto baseado no relato e na perspectiva de um oficial norte-americano que combateu no Iraque. [1]

O que aconteceu há um século? Escreve Charles Tripp que “nas províncias de Baçorá, Bagdade e Mossul o relacionamento político com o Estado Otomano era semelhante ao das outras províncias árabes onde a força das reformas otomanas se fizera sentir. Na perspectiva do governo em Istambul, nem as três províncias da Mesopotâmia eram tratadas administrativamente como uma unidade, nem estava acordada nenhuma forma de representação colectiva que as distinguisse das outras regiões do império otomano. No entanto, os habitantes que começavam a repensar a sua identidade como actores políticos tendiam a pensar em categorias que os ligavam a pessoas de pensamento semelhante nas outras províncias. Em alguns casos, os seus raciocínios coincidiam com os dos seus compatriotas noutros lugares da Mesopotâmia, mas estabeleceram também laços organizacionais e imaginativos muito para além das fronteiras destas províncias. Não obstante, alguns aspectos da sociedade política emergente ajudaram a criar uma base de laços identificativos, se bem que não para uma unidade de propósitos ou acção. Bagdade, como sede do principal governo e quartel-general de um corpo de exército otomano, exercia uma certa atracção gravitacional sobre as outras duas províncias, mais forte no caso de Baçorá do que no de Mossul, mas não obstante visível mesmo nesta. Igualmente, como as organizações políticas indicavam, estavam sendo forjados laços pessoais entre os membros destes agrupamentos – laços reforçados muitas vezes por ligações familiares através do comércio ou pertença à administração otomana ou ao corpo de oficiais. Consequentemente, entre certos sectores da sociedade das três províncias, existiam de facto interligações e inter-relações. Sobre a égide do estado otomano, estas foram suficientes para criar uma dinâmica interna para a fundação de um estado separado. Mas uma vez que esse estado foi criado pela intervenção do Reino Unido, a interacção destes grupos e as experiências similares das últimas décadas do domínio otomano influenciaram inevitavelmente as posições e atitudes dos que estavam a habitar o novo estado do Iraque.” [2]

Continuando com Tripp, “A ocupação britânica das províncias otomanas de Baçorá, Bagdade e Mosul e a sua consolidação no novo estado do Iraque sob Mandato da Sociedade das Nações administrado pelo Reino Unido alterou radicalmente os mundos políticos dos habitantes destes territórios. A história do Iraque começa aqui, não simplesmente como história das instituições formais do estado, mas como as histórias de todos os que foram arrastados para o novo regime de poder. Exigiu novas formas de identidade e novas estratégias para explorar as oportunidades que se lhes apresentavam. Os britânicos necessitavam de pessoas para constituir a nova ordem, encorajando indivíduos e grupos específicos a emergir como interlocutores privilegiados na narrativa da história política do Iraque, com vista à criação de um estado reconhecível com uma ordem social adequada. Os britânicos olharam para dois grupos: as elites xarifenhas e da ex-administração otomana, para quem o novo estado do Iraque era a garantia da centralidade e do estatuto, e para os notáveis de uma sociedade cada vez mais definida pela posse da terra. Os mujtahids xiitas [3], os chefes curdos ou os assírios, que aspiravam a uma ordem política e social diversa, foram encarados de forma intolerante pela administração britânica. Não obstante, dos cerca de cerca de três milhões de habitantes do Iraque no início do Mandato, mais de metade era xiita e aproximadamente 20% eram curdos, com cerca de 8% de minorias de judeus, cristãos, azidis, sabeus e turcomanos. Contudo, como Tripp realça, os ministros do governo, os funcionários superiores do estado e o corpo de oficiais das forças armadas eram quase exclusivamente árabes sunitas, que constituíam menos de 20% da população, o que, dada a sua posição minoritária, não era uma base promissora para a integração nacional que, em teoria, estava planeada acompanhar a construção do estado moderno.”[4]

A minoria sunita, encabeçada por um grupo de políticos educados no Ocidente, foi a principal beneficiada do colapso do império otomano e pretendia a criação de um Estado iraquiano independente e laico ou uma monarquia constitucional do género britânico. Os xiitas, que formavam a maioria da população das zonas central e sul, pretendiam um Estado islâmico enquanto o seu clero considerava ilegal a ocupação britânica, uma vez que muçulmanos não deviam ser governados por não muçulmanos. Os curdos, aspiravam uma pátria independente e aproveitaram a derrota otomana e a ocupação britânica da Mesopotâmia para exigirem um Estado livre. Tinham sido encorajados pelas promessas de autonomia contidas no plano de catorze pontos do presidente americano Woodrow Wilson.” – (Adel Darwish e Gregory Alexander) [5]

Em 1914, não existia em Londres ou na Índia nenhuma ideia clara acerca do futuro político da Mesopotâmia. A Força Expedicionária britânica limitara-se a objectivos militares, mas os ganhos territoriais conseguidos acabaram por ser vistos como um recurso político em si mesmos. Baçorá foi ocupada após a derrota dos otomanos em Shu´aiba, em Abril de 1915, e Bagdade em Março de 1917. Kirkuk caiu no final do Verão de 1918, tendo o Armistício de Mudros sido assinado em Outubro do mesmo ano. Segundo os seus termos, todas as guarnições otomanas na Mesopotâmia se rendiam ao Reino Unido. Como tal, o comandante britânico deslocou-se a Mossul exigindo a sua rendição e a evacuação do contingente otomano da província, tendo o respectivo governador protestado que Mossul não fazia parte da Mesopotâmia, tendo sido, não obstante, obrigado a cumprir. A linha de armistício ficou definida como a fronteira norte da província de Mosul”, [6] o que, presentemente, deve ser relacionado com as aspirações curdas à independência ou com a vontade de Erdogan de anexar território no norte do Iraque.

Regressemos ao presente. Para entender o surgimento do Estado Islâmico, olhemos para o mapa de Bagdade, que ilustra como a limpeza étnica transformou a cidade. Entre 2005 e 2007, a demografia da urbe alterou-se, passando de uma cidade árabe de maioria sunita, com bairros étnicos e religiosos misturados, a uma cidade xiita árabe com demarcações físicas e fortes a separar as diferentes seitas. Os xiitas árabes continuam a ser a maioria da população do Iraque, há muito reprimida e por vezes massacrada sob o regime de Saddam Hussein. Sendo a relação entre estes dois grupos de três para um a favor dos xiitas, os sunitas do Iraque não teriam a menor protecção se não fossem as forças de segurança controladas por Saddam, também ele um sunita, membro do partido socialista transnacional Baath. Entre 2005 e 2007, uma vez aberta uma brecha no perímetro defensável de um bairro de Bagdad, os esquadrões da morte xiitas, muitas vezes vestindo os uniformes das forças de segurança iraquianas do pós-Saddam, entravam por ele dentro varrendo-o a tiro, abatendo os sunitas e apropriando-se dos seus bens, parando apenas para se reorganizarem ou quando surgia um canal ou uma auto-estrada. Para recomeçarem a limpeza no bairro seguinte.

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Blake Hall testemunhou a eficiência dos esquadrões da morte xiitas na capital  e refere a sua não surpresa quando os xiitas empurraram os sunitas para fora do processo político logo que as forças americanas deixaram o território. Estas representavam a única força neutra no país e, portanto, a última esperança para a aproximação de longo prazo entre xiitas e sunitas. Parecia evidente, em 2007, que as forças de segurança do Irão tinham tomado conta do Ministério do Interior iraquiano. E que os iranianos nunca permitiriam que os sunitas partilhassem o poder no Iraque. Para estabilizar o Iraque não bastará resolver o isolamento político dos sunitas. Os iraquianos estão agora separados geograficamente, segundo linhas étnicas e religiosas. É um problema muito complicado de resolver e é um reflexo das profundas divisões políticas da sociedade. É necessária uma alternativa política legítima para os árabes sunitas do Iraque, alternativa laica, a fim de derrotar o Estado islâmico, o que tem subjacente a questão de saber se e em que medida o actual Iraque ainda poderá ser aproveitado para o efeito, designadamente em termos de fronteiras externas. Após as chacinas de 2006 e as seguintes, os árabes sunitas do Iraque dificilmente irão confiar no que lhes tem sido prometido pelos governos de Bagdade controlados pelo Irão. A invasão americana de 2003 e a insistência posterior num determinado modelo de democracia mais não significou para os sunitas que uma tirania da maioria xiita, com as forças de segurança iranianas a usar a democracia para acertar contas antigas contra os sunitas do Iraque.

Nas últimas duas décadas, a política dos EUA para o Médio Oriente e Norte de África (MENA) não tem sido clara. Se há uma orientação que não passe pela desestabilização da região, ainda não se percebeu qual seja. Como na Líbia e agora na Síria, rejeita-se determinada solução de governo local sem cuidar de saber que fórmula vai poder ser implementada no lugar da anterior. Os extremistas islâmicos agradecem e têm demonstrado elevada competência em ocupar os vazios de poder. Em 10 de Setembro de 2014, Obama repetiu o que ex-secretário de estado da Defesa, Donald Rumsfeld, dissera nos primeiros anos da guerra do Iraque: “Não podemos fazer pelos iraquianos o que eles devem fazer por si próprios“, o que mostra que ainda não percebeu que foi a retirada das forças norte-americanas em 2007 que criou o vazio impulsionador do presente status quo no Iraque e empurrou os sunitas do Iraque para os braços da al-Qaeda, antecessora local do Estado Islâmico. Quando em 2003 a administração Bush decidiu dissolver a estrutura militar e securitária, maioritariamente sunita, criada por Saddam e, em seguida, banir a participação dos sunitas no novo governo iraquiano – por via da “desbaatificação” do regime – , mais não fez que desmotivar a participação e envolvimento dos sunitas na resolução dos graves problemas do Iraque. Foi quando o general Petraeus, então comandante da 101ª Divisão Aerotransportada com quartel-general em Mossul, reconhecendo esta realidade, viajou para Bagdade para dizer à administração Bush que a política em curso estava a matar os soldados norte-americanos. [7]

O plano do presidente Obama de “degradar e destruir o Estado Islâmico” tem passado por, ao mesmo tempo que bombardeia alguns activos do Estado Islâmico, armar rebeldes “moderados” que não têm líderes políticos e militares credíveis, com objectivo confesso de derrubar o regime de Bashar Hafez al-Assad.  A panóplia de fidelidades e alianças dos “moderados” é ininteligível para o observador comum e mesmo para alguns especialistas, pois ora alinham com a Jabhat al-Nusra contra Assad ou contra Assad e o Estado Islâmico, ora apoiam os curdos de Kobani (Ayn-al-Arab em arábico), ora combatem a al-Qaeda na Síria (a al-Nusra é a filial síria da al-Qaeda). [8] Se os extremistas da Síria derrotassem o regime de Assad, o mais provável seria que os xiitas alauítas da Síria e as populações minoritárias que lutaram por Assad, incluindo os cristãos, fossem exterminados, como no Iraque. Porém, a intervenção de Putin e o apoio do Irão e do Hezbolhah têm vindo a alterar progressivamente o status quo sírio em benefício de Assad.

Tem sido repetido até à exaustão pela imprensa – o que vai aliás ao encontro da propaganda dos radicais – que o objectivo supremo e final da jihad é a restauração de um califado islâmico. Para atingir este propósito os salafitas enfrentam dois tipos de inimigos, que pretendem derrotar: o distante – EUA e o Ocidente em geral – e o próximo – monarquias e ditadores seculares do Médio Oriente. Enquanto a maioria dos jihadistas se centrava no inimigo próximo, Osama Bin Laden optara por atacar em primeiro lugar o inimigo distante. Encorajado pelas experiências de luta contra a União Soviética, a estratégia de Bin Laden consistia em isolar os inimigos próximos do apoio fornecido pelo inimigo distante, para depois derrubar os regimes laicos, um a um. Paradoxalmente e apesar de não ter sido pre-figurado por Bin Laden, a desforra norte-americana aos ataques de 11 de Setembro determinaria que o inimigo distante decidisse atacar um regime inimigo próximo – o regime baathista de Saddam Hussein – em vez de se concentrar unicamente no combate à al-Qaeda. Face à estratégia dualista da jihad salafita, tem sido dito e escrito que a invasão americana do Iraque em 2003 foi um erro crasso dos USA e um benefício imprevisto para Bin Laden e demais grupos extremistas: de uma assentada, o inimigo distante da al-Qaeda tira-lhe do caminho um dos mais fortes inimigos próximos, dissolvendo subsequentemente o exército iraquiano maioritariamente composto por sunitas e restringindo a possibilidade de membros do Partido Baath poderem aspirar a cargos no governo, o que despoletou a revolta dos insurgentes e empurrou os árabes sunitas do Iraque directamente para os braços da al-Qaeda do Iraque. Foi ouro sobre azul: a política da administração Bush para o Iraque conseguiu em pouco tempo o que nenhum grupo salafista jihadista tinha conseguido por si próprio – remover um regime inimigo próximo e a oportunidade do subsequente estabelecimento de um califado.

Apesar da oposição do presidente Obama à guerra (“no boots on the ground”) que não está a conseguir evitar e para a qual volta a ser arrastado, a administração Obama tem reincidido no mesmo erro estratégico: na Síria, no Egipto e na Líbia. Quanto à Síria, já muito destabilizada pelos sauditas e pelo Qatar, fez aprovar um plano de auxílio a grupos sunitas, incluindo grupos islâmicos receptivos às teses da al-Qaeda. No Egipto, deixou cair Mubbarak em benefício da Irmandade Muçulmana, a organização de Sayed Qutb. Ao intervir directamente para derrubar Kaddafi criou o vazio de poder que os salafitas precisam para avançar, colocando as forças norte-americanas e aliados a combater ao lado da al-Qaeda líbia e do Estado Islâmico. Sendo a guerra a continuação da política por outros meios, conforme definição clausewitziana, não é ilegítimo constatar que existe um alinhamento político de curto prazo, pelo menos um alinhamento de meios, entre a administração Obama e os propósitos salafitas.[9] No Iraque, em 2010, Joe Biden desperdiçou uma oportunidade para erradicar o apoio sunita à al-Qaeda iraquiana, apoiando Al-Maliki, um xiita árabe apoiado pelo Irão, para continuar como primeiro-ministro do Iraque, contra Allawi, apesar deste, um xiita secular, ter ganho mais lugares nas legislativas, ter sido o preferido do eleitorado sunita do Iraque, e de, ao que se diz, não estar comprometido com o regime dos aiatolas. [10]

Na perspectiva do diálogo intercultural e inter-religioso, tem-se argumentado que o Ocidente não está ameaçado pelo Islão mas sim pelo islão extremista, especialmente pela expansão da visão do islão preconizado pela al-Qaeda e agora pelo Estado Islâmico. E que devem ser os próprios muçulmanos a opor-se ao integrismo e fundamentalismo wahabita/salafita, denunciando o extremismo globalizante. Este entendimento é perigoso e não tem em conta as lições da História. Apenas um reduzido número de alemães foram nazis, mas o totalitarismo do III Reich empurrou a Europa para o inferno da II Grande Guerra. Para o que agora interessa, continuamos a ouvir que o Islão é uma mundivisão de paz e que a esmagadora maioria dos muçulmanos quer viver em liberdade, o que até, sendo verdade, é irrelevante. São os extremistas que moldam a História à sua imagem e semelhança. São quem deflagra a maior parte das guerras em curso, são quem extremina os que pertencem a outras confissões. Decapitam, destroem templos, apedrejam mulheres ou enforcam homosexuais. São quem ensina crianças a tornar-se bombistas. A grande maioria dos muçulmanos não concorda com estas práticas, mas de pouco tem servido a discordância. A Rússia comunista estava cheia de russos que apenas queriam viver em paz e, não obstante, foram responsáveis pela morte de milhões de almas. A grande maioria foi irrelevante. Idem quanto aos actos praticados pelos comunistas chineses. Ibidem quanto ao Japão e ao Ruanda. A História é fértil em lições semelhantes. É por tudo isto que os muçulmanos pacíficos são irrelevantes, porque não mudam o curso da História, tanto com o seu silêncio como com as suas omissões, seja nas comunidades das Grã-Bretanha, da França e da Alemanha, seja na Líbia, na Síria ou no Iraque. Numa tentativa de inversão dos acontecimentos, em 24 de Setembro de 2014, cerca de 120 clérigos muçulmanos sunitas de todo o mundo, incluindo o actual e o ex-grande-mufti do Egipto, oito académicos de renome da Universidade Al-Azhar do Cairo e outros líderes sunitas conhecidos, divulgaram uma carta aberta denunciando o Estado Islâmico. O documento, que cita o Alcorão e o Hadith extensivamente, é um passo importante mas não suficiente para a desconstrução dos argumentos teológicos apresentados pelo Estado Islâmico para justificar a sua conduta. [11]

O islão preconizado pela al-Qaeda e pelo Estado Islâmico é fundamentalista, integrista e intolerante. Numa síntese, em crónica publicada em Outubro de 2001 na revista L´Espresso [12], escrita portanto antes do recente protagonismo da al-Qaeda e do Estado Islâmico,  Umberto Eco escreve que “o fundamentalismo está ligado à interpretação de um livro sagrado, em conexão estreita com o elemento literal do texto, ao passo que o integrismo refere-se a uma posição religiosa e política segundo a qual os princípios religiosos devem ser em simultâneo modelos de vida política e fonte das leis do Estado. Se o fundamentalismo obedece, em princípio, a coordenadas conservadoras, há integrismos que se afirmam como progressistas e revolucionários.” Evoquei Eco porque não sabemos o que vai acontecer ao Iraque, que foi secular durante as últimas décadas. Conhecemos os propósitos do Estado Islâmico mas não os do governo xiita de Bagdade. Será que os xiitas iraquianos desejam uma república teocrática islâmica como a dos vizinhos ?

As fronteiras estabelecidas pelo tratado Sykes-Picot, que dividiram os estados da Síria e do Iraque perderam relevância. O tratado – corolário do fim do Império Otomano, individualmente considerado ou em conjunto com outras causas como a criação do Estado de Israel, a divisão do Paquistão, os sucessivos falhanços do pan-arabismo e do pan-islamismo ou a regressão científica das nações do Alcorão – é agora apontado como um dos factores externos que conduziu à doença do Islão. Nas palavras do califa do Estado Islâmico, Abu Bakr al-Bagdadi, “Este avanço abençoado não vai parar até pregarmos o último prego no caixão da conspiração Sykes-Picot”, evocando também a Revolta Árabe da Mesopotâmia de 1920 contra os britânicos, para a equiparar à insurgência iraquiana árabe de maioria sunita de 2006-2007 dirigida por antigos oficiais de Saddam Hussein. A expansão do Estado Islâmico é pois alimentada pela longa história de queixas dos árabes sunitas contra o Ocidente desde a “traição” [13] de Sykes-Picot à invasão pelos EUA que os retirou do poder em 2003. Sem um líder capaz de manter o Iraque unido, pela paz ou pela força das armas, os interesses antagónicos das diferentes etnias não desaparecerão.

Ao mesmo tempo, verificamos que o Iraque surge, de facto, dividido em três entidades distintas: Curdistão no norte, um estado sunita no oeste, que se estende até Aleppo, na Síria, e um estado xiita que vai de Bagdade a Baçorá. A entidade curda do Iraque, provavelmente na expectativa de apoio político para a independência, mantêm boas relações com os USA e coopera com o seu interesse na região. A entidade xiita do Iraque é controlada pelo Irão e será no longo prazo adversa aos interesses norte-americanos. No Iraque e na Síria, a entidade sunita, presentemente controlada pelo Estado Islâmico, é furiosamente hostil relativamente aos EUA, Reino Unido e Ocidente em geral. 

Hall refere que a maioria dos árabes sunitas do Iraque despreza a al-Qaeda e o Estado islâmico e que gostam do modo de vida ocidental. (Johnny Walker é uma marca popular no Iraque). E que acolheram o Estado Islâmico por desespero e por considerarem os extremistas menos perigosos do que as milícias xiitas e esquadrões da morte xiitas que os aterrorizaram em Bagdade.

Hall escreveu sem saber que em Outubro de 2015 Putin assentaria arraiais na Síria e que o Irão subiria a parada em termos políticos e militares também na Síria, o que deu alento ao regime de Assad tornando-o, eventualmente, parceiro nas negociações para a paz e candidato ao poder nas próximas eleições. Não obstante, continuo a citar Hall para que se perceba o raciocínio, que radica na necessidade de se conceber uma fórmula de representatividade política para os sunitas – Para derrotar o Estado Islâmico e para promover os interesses americanos, os EUA deveriam criar uma alternativa política legítima, secular, para os sunitas do Iraque. A região precisa de novas fronteiras que reflictam os interesses naturais dos grupos étnicos e religiosos. Felizmente, onze anos de guerra sectária já clarificaram que interesses são esses e que territórios lhes corresponderiam. O mapa de um Iraque reformado e de uma nova Síria poderia ser semelhante a este:

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O objectivo não seria que os rebeldes sunitas da Síria derrotassem Assad, porque a parte ocidental da Síria é alauíta e integra minoritárias não-muçulmanas que poderiam ser massacrados se os rebeldes apoiados pelos EUA triunfassem. O objectivo seria a paz e a segurança para todos os grupos aceites pelos governos seculares legítimos. Se os EUA impuserem uma zona de exclusão aérea às forças de Assad sobre o novo estado sunita na Síria, os EUA podem dividi-la de forma relativamente rápida num estado xiita alauita e num Estado árabe sunita, sem envolver tropas terrestres. Esta medida satisfaria os estados árabes do Golfo e a Turquia, apesar dos protestos de Assad, mas, o mais importante seria o desmantelar das fronteiras “fictícias” desenhadas pelo Reino Unido. (Com os Russos na Síria o projecto “no-fly zone” cai por terra).

 Os curdos são o maior grupo étnico do mundo sem um Estado. São ainda o quarto maior grupo étnico do Médio Oriente, depois os árabes, persas e turcos. [14] O reconhecimento de um novo Estado curdo não é apenas a opção certa, porque se limita a formalizar o que já existe no terreno em grande parte da última década – o Curdistão existe como um estado de facto. Há uma reivindicação legítima sobre o território e é chegada a hora de a América mostrar coragem política que reconheça a luta dos curdos pela autodeterminação, devendo ser armados e apoiados na medida do possível e até ao ponto em que lutem por território curdo.

 O actual governo do Iraque é o de um estado xiita controlado pelo Irão, que só controla o Iraque xiita do sul do território. Depois de terem sido massacrados às mãos dos xiitas em Bagdade, os sunitas do Iraque nunca voltarão a deixar as forças de segurança xiita entrar nas cidades que controlam. E agora que o país tem sido etnicamente segregado é muito tarde para se falar em inclusão política. Houve uma hipótese de reconciliação, mas foi-se. O Irão governa o que resta do Iraque e seus líderes governarão por procuração por longo tempo, especialmente depois de o exército iraquiano se ter desintegrado e de os árabes sunitas do Iraque rejeitaram o remanescente estado iraquiano. Deve parecer um absurdo aos curdos seculares que defendem Kobani que os EUA estejam mais dispostos a apoiar um governo xiita pro-Irão em Bagdade do que um povo laico que ama a democracia e a América e que luta pelo direito fundamental de autodeterminação.

O melhor resultado para a América é que seja um líder secular, pró-ocidental na linha de um Mustafa Kemal, que tornou a Turquia um Estado laico, a governar o Iraque e os árabes sunitas da Síria, em vez do Estado Islâmico. Esse líder sunita teria de derrotar este, a Frente al-Nusra da al-Qaeda, bem como os vários grupos de sírios islamitas que a ele se poderiam vir a opor. Os EUA podem concretizar todos esses objetivos com dinheiro, forças especiais e com a força aérea, aproveitando as tribos do Iraque e da Síria e combatentes árabes sunitas laicos, em vez de empregarem forças terrestres convencionais norte-americanas. (Os resultados da política dos EUA estão à vista).

Durante o “The Surge” [15], o general Petraeus pagou a líderes das tribos árabes sunitas mais dinheiro para matar combatentes da al-Qaeda no Iraque do que a al-Qaeda no Iraque pagou às tribos para matar norte-americanos. A táctica foi altamente eficaz mas impermanente, porque os USA não tinham uma estratégia política vencedora. Os USA podem ganhar a guerra empregando a mesma táctica novamente, mas conexa com um objectivo político significativo para as tribos sunitas – o estabelecimento de um estado sunita secular que preserve a estrutura tribal da sociedade árabe dentro das fronteiras do que costumavam ser o Iraque e a Síria. Ali Hatem, o principal xeque na província iraquiana de Anbar é a opção mais viável para a tarefa. Financiando-o para pudesse comprar as tribos, apoiando-o com as forças especiais e poder aéreo e motivando-o com a perspectiva de liderar um governo sunita legítimo reconhecido pelo Ocidente, os sunitas teriam finalmente uma alternativa ao Estado Islâmico e a outros grupos islâmicos. Dado que os grupos rebeldes sunitas representam mandantes sauditas e estados árabes do Golfo, ao passo que as forças de Assad representam os mandantes iranianos, esta abordagem é necessária caso se apresente aos EUA a possibilidade de derrotar o Estado Islâmico e sua substituição por um governo pró-ocidental legítimo que não desestabilize ainda mais a região.

Quando um líder secular forte, sunita, ganhar – um resultado inevitável com o apoio certo – o Iraque e os sunitas da Síria terão uma representação política legítima, laica. Só então a capacidade de recrutamento do Estado Islâmico será significativamente diminuída. Além disso, o novo governo sunita ficaria responsável pelo policiamento dos remanescentes grupos jihadista-salafitas. Em suma, se os EUA prosseguissem (estes) objectivos políticos bem definidos, as áreas sunitas do Iraque e Síria teriam um governo pró-ocidental secular, comprometido em assegurar que o Estado islâmico, uma vez derrotado, derrotado permanecesse. 

 A presente estratégia dos EUA para o Iraque e Síria prescreve uma acção militar sem definir o propósito político visado por esta. Se, dos últimos 13 anos, algo deve permanecer como lição indelével é que estas acções tornarão inevitavelmente os EUA mais vulneráveis no longo prazo. “Os EUA podem derrotar o Estado islâmico, mas é necessário um líder com a visão do que um novo Iraque e uma nova Síria devem ser.”

Em suma, Hall parece comungar da perspectiva de que a solução para os sunitas do Iraque deve ser imposta pelos EUA e não gizada pelos povos da região. As águas ainda estão turvas. Mas é notória a influência progressiva do Irão e da Rússia no Crescente Fértil.

Nota: os parágrafos em itálico correspondem ao texto de Hall.

CL – 12/11/2014, com revisão recente

[1] Baseado no relato e comentários de Blake Hall, oficial norte-americano que combateu no Iraque, com o título “Como derrotar o Estado Islâmico”, disponível em: https://medium.com/@blake_hall/how-to-defeat-the-islamic-state-de18b0a18354

[2] História do Iraque ou do Nascimento e Estado de uma Nação, ed. Europa-América, págs. 51 e 52.

[3] Mujtahid: clérigo xiita com competência reconhecida para emitir opiniões independentes em assuntos relacionados com a Sharia.

[4] Tripp, pág. 54 e segs.

[5] Adel Darwish e Gregory Alexander, Guerra do Golfo, ed. Europa-América, pág. 29.

[6] Tripp, idem.

[7] General Petraeus: “You know, your policy is killing our troopers”

[8] “Jamal Maarouf, the leader of the Syrian Revolutionaries’ Front (SRF), a US-backed Islamist group formed as an alliance of ex-FSA brigades, sent a strong message to Abu Muhammad al-Joulani, the leader of Jabhat al-Nusra (Nusra Front), which is al-Qaeda’s official branch in Syria, angry at him for fighting against him and his group in Jabal al-Zawiya. Maarouf does not hesitate to level the same accusations against Nusra Front that other US-backed groups in Syria have made against ISIL, such as being agents of the Syrian government. The close relationship that binds the Nusra Front and many other rebel groups in Syria puts the SRF in a weak position.

The US-backed SRF and other “moderate” groups were tasked since early 2014 by the Obama administration to fight other hardcore Wahhabi militant groups such as ISIL and Nusra Front. Until recently, the SRF conducted joint operations with Nusra Front; however, recent fighting seems to suggest that this alliance is over.

Source: ShaamNetwork S.N.N.”No Youtube: http://www.youtube.com/watch?v=kzORCn07COQ

[9] http://www.nytimes.com/2012/12/06/world/africa/weapons-sent-to-libyan-rebels-with-us-approval-fell-into-islamist-hands.html?pagewanted=all&_r=0

[10] “On December 22, 2010, James Jeffrey, the American Ambassador to Iraq, and General Lloyd Austin, the top American commander there, issued a note of congratulations to the Iraqi people on the formation of a new government, led by Prime Minister Nuri al-Maliki. The country had been without a government for nine months, after parliamentary elections ended in an impasse. The composition of the government was critical; at the time of the election, there were still nearly a hundred thousand American troops in the country, and U.S. commanders were still hoping to leave a residual force behind. “We look forward to working with the new coalition government in furthering our common vision of a democratic Iraq,” the two men said. What Jeffrey and Austin didn’t say was that the crucial deal that brought the Iraqi government together was made not by them but by Suleimani. In the months before, according to several Iraqi and Western officials, Suleimani invited senior Shiite and Kurdish leaders to meet with him in Tehran and Qom, and extracted from them a promise to support Maliki, his preferred candidate.”

Fonte – biografia online do Major-General Qassem Suleimani, comandante da Quds Force, da autoria de Dexter Filkins: http://docstalk.blogspot.pt/2013/09/the-shadow-commander.html

[11] http://www.firstthings.com/web-exclusives/2014/10/is-the-muslim-scholars-open-letter-to-isis-really-enough

[12] Disponível no livro de crónicas “A Passo de Carangueijo”, ed. Difel, págs. 225-227.

[13] Assinado em 16 de Maio de 1916 foi um ajuste secreto entre o Reino Unido e a França que definiu as suas respetivas esferas de influência no Médio Oriente após a I Grande Guerra. É considerado um ponto de inflexão nas relações entre os árabes e o Ocidente, já que contrariava as promessas feitas aos árabes através de T. E. Lawrence, no sentido da criação de uma nação em território sírio em troca de apoio ao esforço de guerra britânico contra o Império Otomano. Da correspondência de 1915-1916 entre Hussein, xarife de Meca e Henry McMahon, alto comissário britânico, publicada integralmente em 1939, consta que aquele comprometia-se a organizar uma revolta árabe contra os turcos em troca de um território formado pela Arábia (com excepção de Aden), o Iraque, a Palestina, a Transjordânia e a Síria. A promessa não foi mantida, dado que após a guerra a Síria foi dada à França, que a administrou através de um mandato da Sociedade das Nações. Para além disso, em Novembro de 1917, através da Declaração Balfour, a Grã-Bretanha viria a permitir o estabelecimento de um estado judaico na Palestina. Os britânicos alegaram que a Palestina não foi prometida a Hussein e que ocorreu um mal-entendido por parte do xarife.

[14] Grande parte dos curdos vive na Turquia.

[15] Fase de forte incremento do dispositivo norte-americano no Iraque em 2007, por ordem do presidente George W. Bush, para garantir a segurança em Bagdade e na província de Anbar.

 

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