Turcos em Mosul. Água versus gás.

A presença de tropas turcas em Mosul está a criar problemas e a suscitar questões. Em Bagdade, o governo e os partidos xiitas exigiram a retirada imediata, ameaçando levar o caso ao Conselho de Segurança das N.U.. Segundo os turcos, o plano de reforços foi discutido em detalhe com Brett McGurk, coordenador do presidente Obama para o combate contra o Estado Islâmico, na visita deste a Ankara em 5-6 de Novembro. “Não se trata de uma operação da coligação anti-ISIS, mas estamos a informar os americanos de todos os detalhes. Não é uma operação secreta”. McGurk confirmou e diz que os EUA são neutros, o que carece de ser verificado, pois a Reuters noticiou que a artilharia e os tanques pertencem à coligação. Ankara insiste que as tropas são parte de uma missão internacional para treinar e equipar a Hashid Watani, controlada pelo antigo governador de Nineveh Atheel al-Nujaifi, que, tal como o ex-presidente Barzani, é pro-turco. A Hashid Watani, ou mobilização nacional, é composta maioritariamente por ex-polícias e voluntários iraquianos sunitas de Mosul e é tida como um contra-peso às milícias xiitas que se têm multiplicado no Iraque. Segundo o “Institute for the Study of War” esta movimentação pretende provavelmente influenciar o planeamento de futuras operações anti-ISIS em Mosul e garantir, “à la longue”, a influência turca na região.

Mas também se questiona se Erdogan não pretenderá pressionar o PM Abadi com o pipeline do Qatar, com trajecto previsto pelo Iraque. No projecto inicial a conduta passaria pelos desertos da Síria, com o gás a ser vendido na Turquia em concorrência com o gás russo. Assad opôs-se e optou pelo gasoduto Irão-Iraque-Síria, conhecido como “pipeline islâmico”. Qatar e Irão exploram as enormes reservas de gás de South Pars, no Golfo Pérsico. O primeiro a implementar um projecto deste calibre terá signficativas vantagens na extracção e na quota de mercado. A escolha de Assad foi uma das causas para que os qataris se tivessem empenhado a fundo na mudança do regime sírio. No plano B prevê-se que a conduta transite pelas terras acidentadas da Anatólia, de construção mais onerosa, mas ainda assim viável. Os norte-americanos apoiam. Na perspectiva dos governos europeus, tudo o que nos deixe dependentes de gás proveniente de regimes controlados pelos EUA é preferível a negociar-se com os russos.

Erdogan visitou o Qatar em 1 de Dezembro e assinou acordos estratégicos. As tropas avançaram para Mosul nos dias 4 e 5. Para alguns analistas, relacionar a movimentação dos turcos com o dossier do pipeline é mais do que uma inevitabilidade. O governo do Iraque, alinhado com o Irão, Síria e Rússia, pode não ceder a Erdogan, pois estão todos contra o gasoduto do Qatar. O Irão consideraria um acordo com a Turquia uma facada nas costas. Os xiitas do Iraque têm força suficiente para fazer cair o governo de Abadi caso este pretenda assinar um acordo desta magnitude com dois parceiros sunitas.

MC

ADITAMENTO:

Confirmadas as pressões – ou a chantagem – de Erdogan sobre o governo do Iraque, o que estará relacionado com a presença da força turca em Mosul. Uma vez que o gasoduto Qatar-Turquia já não pode atravessar a Síria, Erdogan pretende que cruze o Iraque rumando para norte em direcção à fronteira turca, precavendo-se assim contra eventuais futuras sanções russas a decretar na sequência do abate do SU-24. Em troca, compromete-se a não condicionar os cursos de água (insinuando o contrário, caso Bagdade não colabore) e a apoiar a luta anti-terrorista.

https://elijahjm.wordpress.com/2015/12/08/turkish-forces-in-iraq-to-impose-the-gas-versus-the-water/

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