Um eixo de resistência

Schiitischer_Halbmond

Os media dão-nos conta de uma guerra devastadora na Síria, destinada a forjar a futura identidade da região. O processo em curso, de balcanização do território, não teve início nos levantamentos populares de 2011. Começou antes. É fundamental interiorizar este facto antes de se pretender tomar posição sobre quem são os bons e os maus da fita, como faz praticamente toda a comunicação social.

Adivinhar o que acontecerá doravante, após a decisão de Putin de enviar uma força militar para a Síria, não cabe nos objectivos do texto. Quem sabe a resposta que faça a análise. Não obstante, podemos saber algo do pretérito – que a guerra na Síria tem sido uma guerra por procuração destinada a assegurar a hegemonia sunita-saudita sobre um “eixo de resistência” no qual está integrado o Irão. E que o conflito sírio se tornou bizarro ao ponto de vermos Israel e a Arábia Saudita do mesmo lado da barricada. Por exemplo, em Maio de 2013 Israel atacou com mísseis instalações defensivas sírias em redor de Damasco, desequilibrando o combate a favor dos rebeldes financiados pela Casa de Saud e pelo Qatar.

Aproximadamente 70% dos sírios são muçulmanos sunitas e o remanescente da população pertence a minorias. Cristãos (12%), alauitas (12-15%), drusos, xiitas, judeus, e outras identidades étnicas identificáveis através da língua mãe, v.g. curdos, assírios e arménios. Nas últimas quatro décadas a Síria foi governada pelo Baath, que chegou ao poder após uma série de golpes ocorridos após o fim do mandato francês. “Ba’ath” em árabico significa “renascer” ou “renascimento”, preconizando e protagonizando as teses revivalistas do nacionalismo árabe, centrado não na religião (Islão) mas em factores culturais agregadores – língua, costumes, atitudes, identidade árabe e aspirações.

A Síria é o último estado árabe secular no Médio Oriente, pois há sinais de que o Iraque não resistirá a uma partição entre xiitas, sunitas e curdos. O governo autoritário e repressivo de Assad, não obstante, promove e garante o laicismo da sociedade. Bashar, assim como Hafez antes dele, considera-se o garante do multi-culturalismo e pluralismo religioso na Síria, que de outra forma seguiria o caminho do Iraque pós-Saddam e da Líbia pós-Kaddafi, que por ora poderemos considerar estados falhados.

As minorias cristãs e alauitas são os principais apoiantes do Baath e do governo porque este sempre combateu o radicalismo religioso da Irmandade Muçulmana, que pretende alcançar o poder para erradicar o laicismo do Baath. Este e a Irmandade combatem-se desde os anos 70 e a guerra civil que agora engole o país já foi considerada o xeque-mate do jogo de décadas pela identidade da Síria. A Irmandade e o grosso da oposição a Assad visam a implementação de um governo islâmico regido pela Sharia, uma vez que parte dos Estados-nação muçulmanos nascidos no séc. XX, no pós-mandato francês e britânico, em maior ou menor grau, tinham posto de lado a lei islâmica e optado por leis do tipo ocidental.

A Irmandade tentou assassinar Hafez Al-Assad em 1982, através de um levantamento armado em Hama, que foi prontamente neutralizado pelo governo e causou cerca de 15.000 mortos. A Irmandade teve a iniciativa, assaltando instalações e habitações dos membros do Baath e assassinando quem encontrou pela frente, mas o governo respondeu com violência e sem clemência, arrasando a cidade.

O regime sírio é uma reminiscência, ainda actuante, do paradigma socialista-nacionalista árabe do séc. XX. Alinha com o Irão, não por afinidade religiosa, apesar de a religião alauita ser uma ramificação do xiismo. Ao contrário, como sabemos, o regime baathista socialista e laico de Saddam travou com o Irão teocrático de Khomeini uma guerra sangrenta nos anos 1980-1988. Assad voltou-se para o Irão devido à proximidade de Israel e à política pro-saudita do Ocidente. O resultado é a existência de um “eixo de resistência” no coração do Médio Oriente, constituído pela Síria, Irão, milícias xiitas que presentemente controlam um terço do Iraque, Hezbollah (que domina o sul do Líbano e fez eleger deputados) e agora a Rússia. Os estados árabes do Golfo, a Turquia, Israel e a coligação anti-Assad liderada pelos EUA pretendem fragmentar este eixo de resistência e romper a correspondente contiguidade territorial.

MC

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