Bernard Lewis: religiões relativistas e triunfalistas

RV-AG801_ISLAM__DV_20120511013011Bernard Lewis, Getty Images

Nem sempre gosto de classificações, mas ajudam a pensar. Recordo esta, repetida por Bernard Lewis, judeu, britânico, autor de obra extensa sobre o Médio Oriente, que distingue entre religiões relativistas e religiões triunfalistas.

A relativista pode ser formulada assim: “Desde que a humanidade inventou as várias línguas para falar entre si, inventou também também religiões diferentes para falar com Deus. Talvez Deus não as entenda todas da mesma forma, mas entende todas elas. Já os crentes das religiões triunfalistas acreditam que são os afortunados destinatários da mensagem final de Deus para a Humanidade e que é seu dever não a guardar egoísticamente – à semelhança do que fazem judeus e budistas – ultrapassando todos os obstáculos que possam ir surgindo pelo caminho.”

“As religiões triunfalistas são o Cristianismo e o Islão. Partilham em comum a seguinte fórmula: «Eu estou certo, tu não. Vais para o inferno.» Cristianismo e Islão destacaram-se à escala global e permanecem em competição até hoje. As antigas civilizações da Ásia, designadamente a da China e a da Índia, foram igualmente ricas e criativas, com imensos contributos para o desenvolvimento humano mas nunca se reclamaram detentoras da verdade absoluta. Os respectivos sistemas religiosos exerceram uma influência considerável no Homem, muitas das vezes de forma indirecta, não intencional e limitada. O Cristianismo e o Islão são diferentes. Devido à forma como interpretaram e percepcionaram as suas missões evangélicas e o devir histórico, praticamente de forma idêntica ao longo dos séculos, o conflito foi e continua a ser inevitável.

Não obstante, há diferenças nítidas na evolução destas. A religião continua a ter um imenso significado público e social no mundo islâmico – sendo fonte de autoridade, charneira de lealdades e atributo identitário – o que não se passa no hemisfério ocidental, marcado pela ocorrência de fenómenos históricos como o Renascimento, Expansão Ultramarina, Iluminismo e Revolução Industrial. O fundador do Cristianismo advogou a separação dos poderes temporal e espiritual, dando-se a César e a Deus o que a cada um pertence. Durante mais de trezentos anos os cristãos foram uma minoria e perseguidos, e só com Constantino a religião cristã foi adoptada pelo estado. Não obstante, apesar da ingerência de sucessivos papas, na história do Cristianismo e de quase todas as sociedades cristãs, o secularismo (ou o embrião deste) caminhou sempre a par e passo com uma Igreja em construção e desenvolvimento. Deus e César, Igreja e Estado, poder religioso e poder secular, por vezes associados, outras separados, por vezes em harmonia, outras em conflito, às vezes um a dominar o outro, mas nunca se confundindo. A tradição islâmica é outra. Maomé foi um chefe religioso, militar e um líder político. Comandou tropas, fez a guerra e a paz, lançou impostos, administrou a justiça, exercendo os poderes soberanos de uma forma que foi e continua a ser paradigma para milhões de muçulmanos.”

Li o excerto em “Notes on a Century – Reflections Of a Middle East Historian“. Acabei de ler em português outro livro deste autor, “A Crise do Islão“. As justificações que incluiu no posfácio relativamente à invasão do Iraque pelos EUA em 2003 não são convincentes: combater o terrorismo. Lewis foi um excelente historiador. Graças a Deus não enveredou pela política.

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MC

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